Dívida atinge 82% das famílias e atraso cresce na baixa renda

setembro 14, 2026
Celular com calculadora aberta sobre moedas de real, cédulas e notas fiscais amassadas

O percentual de famílias brasileiras com contas a vencer ficou em 82% em agosto, o sétimo mês seguido no maior nível da série histórica, e a inadimplência subiu para 29,9%. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada na quinta-feira (10) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O avanço da inadimplência foi de 0,1 ponto percentual na comparação com julho. O número parece pequeno, mas esconde um movimento concentrado: a alta veio inteira das famílias de menor renda. Em agosto de 2025, o endividamento estava em 78,8%.

A pesquisa ouve 18 mil famílias em todo o país e considera dívidas de cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestação de carro e de casa.

A conta pesa mais na base da pirâmide

Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, o endividamento chegou a 85,1%, alta de 0,2 ponto percentual. A inadimplência nessa faixa subiu de 38,5% em julho para 38,8%, o único avanço registrado no mês. A parcela que declara não ter condições de pagar as contas atrasadas nesse grupo foi a 18,3%, alta de 0,5 ponto.

Nas demais faixas, o quadro melhorou ou ficou estável:

  • de 3 a 5 salários mínimos: 83,7% de endividados, queda de 0,1 ponto, e 28% de inadimplentes;
  • de 5 a 10 salários mínimos: 77,2% de endividados, queda de 1,4 ponto, e 20,3% de inadimplentes, recuo de 1,1 ponto;
  • acima de 10 salários mínimos: 72,3% de endividados, alta de 0,3 ponto, e 14,9% de inadimplentes.

A distância entre os extremos é de quase 13 pontos percentuais no endividamento e de quase 24 pontos na inadimplência.

“A fragilização financeira da base da pirâmide reflete a dependência do crédito para a manutenção do consumo básico”, disse o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Prazo de atraso volta a crescer

O tempo médio de atraso subiu para 65 dias em agosto e interrompeu três meses seguidos de melhora. A fatia de famílias com contas atrasadas entre 30 e 90 dias chegou a 29,1%, a maior desde agosto de 2025.

O comprometimento da renda com dívidas ficou em 29,5% do orçamento familiar, na média. A parcela de famílias que entrega mais da metade do que recebe ao pagamento de dívidas foi a 19,2%, o maior patamar desde março de 2026. E 33,4% carregam compromissos com prazo superior a um ano.

O indicador de quem diz não ter condições de quitar as contas em atraso alcançou 12,5% do total, o maior nível desde fevereiro. Entre os endividados, 17,4% se classificam como muito endividados e 34,9% como pouco endividados.

“Estamos chegando ao último trimestre do mesmo jeito que começamos o ano, com recorde de endividamento e crescimento da inadimplência”, afirmou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.

Tadros associou o quadro ao cenário de juros elevados que reforça esse ciclo desde meados de 2025.

A faixa de 5 a 10 salários mínimos foi a única a melhorar nos três indicadores ao mesmo tempo: caiu o endividamento, caiu a inadimplência e caiu a parcela sem condições de pagar, que recuou 1 ponto e ficou em 7,8%. É a classe média que mais reduziu exposição a dívida no mês.

A Peic é mensal e acompanha tanto o estoque de dívidas a vencer quanto o atraso efetivo, o que permite separar dois fenômenos diferentes. Ter dívida a vencer não indica, por si, dificuldade financeira: parcelamento de compra e financiamento entram na conta. O indicador que mede aperto é o de contas em atraso e o de quem declara não ter como pagar, e são justamente esses dois que subiram em agosto.

O que fazer quando a conta já atrasou

Quem está com dívidas em atraso tem alguns caminhos antes de deixar o débito envelhecer e encarecer. O consumidor pode consultar gratuitamente a própria situação nos birôs de crédito, pedir à instituição financeira a portabilidade da dívida para outro banco com juros menores e negociar diretamente com o credor, que costuma aceitar desconto sobre juros e multa em pagamento à vista.

A ordem de prioridade também importa. Dívidas com garantia, como financiamento de imóvel e de veículo, permitem a retomada do bem e devem ser tratadas antes das linhas sem garantia. Cartão de crédito rotativo e cheque especial costumam ser os débitos mais caros do orçamento e são os primeiros candidatos à troca por uma linha mais barata.

No Distrito Federal, o contribuinte com pendência junto ao governo local tem canal próprio de negociação. O Negocia-DF, da Procuradoria-Geral do DF, já ofereceu desconto de até 65% para quitar dívida ativa.

A próxima edição da Peic, com os dados de setembro, será divulgada pela CNC no mês que vem e vai mostrar se o atraso médio de 65 dias se firma ou recua.

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