DF registra 139 crimes com inteligência artificial em sete meses

agosto 19, 2026
Mãos digitando em teclado de computador em ambiente escuro

A Polícia Civil do Distrito Federal registrou 139 ocorrências criminais envolvendo manipulação de imagens, vídeos ou chamadas de vídeo por inteligência artificial entre janeiro e julho de 2026. Os dados são da própria corporação e foram divulgados nesta terça-feira (18) pelo Correio Braziliense. O uso da tecnologia para forjar rostos e vozes, técnica conhecida como deepfake, aparece com mais força nos golpes financeiros.

O estelionato consumado lidera o levantamento, com 59 registros, seguido por 23 tentativas de estelionato. Nesses casos, o criminoso usa a imagem ou a voz de alguém conhecido da vítima, ou de uma figura pública, para dar credibilidade a um pedido de dinheiro ou à venda de um produto que nunca é entregue.

Os crimes que aparecem na lista

Além do estelionato, o levantamento da PCDF reúne registros em rubricas variadas. Todos têm em comum o uso de conteúdo sintético para enganar, constranger ou ameaçar a vítima.

  • Pornografia: 9 ocorrências, categoria que concentra imagens íntimas forjadas.
  • Ameaça: 7 ocorrências.
  • Crimes contra idosos: 7 consumados e 2 tentativas.
  • Lei Maria da Penha: 5 ocorrências, com 2 registros específicos de violência psicológica contra a mulher.
  • Extorsão: 4 ocorrências.
  • Furtos diversos: 3 ocorrências.
  • Injúria: 2 ocorrências.
  • Perseguição, o crime de stalking: 1 ocorrência.

A lista também inclui registros de falsificação de documento, falsa identidade, crimes cometidos pela internet e invasão de dispositivo informático, condutas que costumam aparecer combinadas em um mesmo golpe.

Deepfake de famoso para vender remédio

A Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) tem investigado esquemas que usam o rosto de artistas e apresentadores para vender medicamentos. O delegado-chefe da unidade, João Guilherme, apontou o agravante de o produto circular sem qualquer controle sanitário.

Uma coisa que chama atenção é que o investigado comercializava esses produtos sem autorização legal, sem saber a natureza.

O modelo é sempre o mesmo. Um vídeo curto circula em redes sociais com a imagem de alguém reconhecível recomendando um tratamento. A fala é sintética, gerada a partir de trechos reais de entrevistas do artista. O link leva a uma página de venda fora das plataformas oficiais, e o pagamento é feito por Pix, sem rastro de empresa cadastrada.

Como desconfiar de um vídeo forjado

Os sistemas de geração de vídeo melhoraram rápido, mas ainda deixam marcas. Vale observar detalhes técnicos antes de repassar um conteúdo ou de fazer qualquer pagamento.

  • Sincronia entre boca e áudio: pequenos atrasos e movimentos labiais que não fecham com o som são o sinal mais comum.
  • Piscada e olhar: cadência irregular de piscadas e olhos parados são típicos de rosto gerado.
  • Bordas do rosto e do cabelo: contorno tremido, orelhas deformadas e brincos que mudam de forma no meio do vídeo.
  • Voz sem respiração: fala contínua, sem pausas naturais e sem ruído de ambiente.
  • Contexto: artista que nunca falou do assunto anunciando remédio, investimento ou sorteio.

Na dúvida sobre um pedido de dinheiro recebido por chamada de vídeo, a recomendação da polícia é encerrar a ligação e telefonar para a pessoa em um número já conhecido. Nenhuma transferência deve ser feita a partir de contato iniciado por terceiros.

O que a lei já prevê

O ordenamento brasileiro passou a tratar de forma específica parte desses casos. A Lei 15.487/2026 tornou hediondo o crime sexual digital contra criança e adolescente, incluindo a produção de imagens por inteligência artificial, com penas mais duras e sem possibilidade de fiança. Veja o que muda na nova lei sobre violência sexual digital.

Na esfera eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral proíbe o uso de conteúdo sintético para prejudicar ou favorecer candidatura e exige rotulagem de material produzido por IA. O tema já produziu decisões no DF, como a que derrubou a ordem para retirada de vídeo feito com IA.

Como registrar

Quem for vítima deve preservar as provas antes de apagar qualquer coisa. Salvar o vídeo, o link, o número de telefone, o perfil que enviou o conteúdo e o comprovante de pagamento. O registro pode ser feito na delegacia da circunscrição ou pela Delegacia Eletrônica da PCDF, disponível na internet para golpes patrimoniais.

Em casos de imagem íntima forjada, a orientação é acionar diretamente uma delegacia especializada e pedir a remoção do conteúdo às plataformas, o que pode ser feito em paralelo à investigação. Denúncias envolvendo crianças e adolescentes também podem ser feitas pelo Disque 100.

A PCDF não divulgou o comparativo com o mesmo período de 2025 nem a taxa de esclarecimento dessas ocorrências. O número de 139 registros em sete meses cobre apenas o que chegou a virar boletim, e a subnotificação é alta em golpes por vergonha da vítima.

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