O ex-governador José Roberto Arruda contestou em 8 de agosto a avaliação divulgada pelo Governo do Distrito Federal sobre as contas públicas e afirmou que a classificação oficial do DF no Tesouro Nacional é “C”. A manifestação veio um dia depois de o GDF anunciar reversão do déficit e projeção de superávit para 2026.
A divergência gira em torno da Capag, a Capacidade de Pagamento calculada pelo Tesouro Nacional. A nota funciona como condição para que estados e o DF obtenham aval da União em operações de crédito, e combina três indicadores: endividamento, poupança corrente e liquidez.
“Agora, isso não vai esconder a verdade sobre o rombo do GDF. A verdadeira nota está lá no site do Tesouro Nacional. A nota é a pior possível, C”, afirmou Arruda.
O que o GDF anunciou
Em 7 de agosto, a governadora Celina Leão e o secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, apresentaram o balanço do primeiro semestre. O governo informou ter revertido o déficit encontrado no início do ano e projetou fechar 2026 no azul.
Os números apresentados pelo Executivo local foram estes:
- déficit de cerca de R$ 5 bilhões identificado em março de 2026, com R$ 5,4 bilhões em problemas fiscais mapeados;
- projeção central de superávit de R$ 3 bilhões ao fim do exercício, com possibilidade de chegar a R$ 5 bilhões;
- mudança da Capag de C para A, segundo a Secretaria de Economia.
“Hoje, nossa projeção é trocar um déficit de R$ 6 bilhões por um superávit de R$ 3 bilhões”, disse o secretário de Economia, Valdivino de Oliveira.
A crítica do ex-governador
Arruda sustenta que a nota apresentada pelo governo não corresponde à classificação oficial. Ele usou uma analogia para descrever o que considera uma autoavaliação.
“Quem define a nota é o professor, não o aluno. O atual governo foi um mau aluno, tirou nota baixa, foi reprovado”, declarou. “Criaram, não sei se com inteligência artificial, um tal ‘A provisório’, que nem existe.”
O ex-governador também acusou a gestão de postergar pagamentos em vez de cortar despesas. “Na verdade, não cortaram gasto nenhum, apenas não fizeram os pagamentos que deviam e isso tem nome: pedalada”, afirmou. Em outra passagem, comparou a situação ao período do governo Dilma Rousseff e disse que a conta apareceria depois da eleição.
Por que as duas versões podem coexistir
O ponto que explica boa parte da divergência é o calendário do Tesouro. As classificações vigentes hoje foram calculadas com base em exercícios anteriores, e a atualização segue um ciclo anual.
Novas notas de estados e do DF são divulgadas em outubro, calculadas sobre as contas de 2025. Já o resultado de 2026, que é a base do balanço apresentado pelo GDF, só entra oficialmente na Capag de 2027, divulgada no ano seguinte.
Na prática, isso significa que a nota publicada no site do Tesouro reflete um período fechado, enquanto o número apresentado pelo governo local é projeção de um exercício em curso. Os dois se referem a recortes de tempo diferentes.
Como a nota é montada
A Capag combina os três indicadores em uma nota única, que vai de A a D. O endividamento mede a relação entre dívida consolidada e receita corrente líquida. A poupança corrente compara despesas correntes com receitas correntes, e indica se o ente gasta mais do que arrecada no custeio. A liquidez avalia se há caixa disponível para honrar obrigações de curto prazo.
Basta um dos indicadores em faixa ruim para puxar a nota final para baixo, o que explica por que a classificação costuma demorar a mudar mesmo quando um dos componentes melhora.
O que a disputa afeta
A Capag não é um indicador simbólico. Estados e o DF com nota A ou B conseguem aval da União para contratar crédito com garantia federal, o que barateia o custo do financiamento. Com nota C ou D, o acesso fica restrito.
O tema ganhou peso no debate local porque o GDF trabalha com uma operação de crédito de R$ 6,6 bilhões voltada ao BRB, discussão que envolve União, Banco Central e Fundo Garantidor de Créditos. É justamente em operações com aval federal que a nota do Tesouro pesa.
Arruda governou o DF entre 2007 e 2010 e hoje se manifesta sobre a gestão local pelas redes sociais. As declarações desta semana foram feitas em vídeo publicado em 8 de agosto.
A confirmação de qual lado está com a razão sobre a nota depende da divulgação oficial do Tesouro Nacional, prevista para outubro.
Leia também: GDF projeta superávit de R$ 3 bilhões e diz que Capag passou de C para A.
Perguntas frequentes
O que é a Capag?
É a Capacidade de Pagamento calculada pelo Tesouro Nacional. A nota vai de A a D e combina três indicadores: endividamento, poupança corrente e liquidez. Ela condiciona o aval da União em operações de crédito de estados e do DF.
Qual é a nota do DF no Tesouro Nacional?
A classificação publicada pelo Tesouro reflete exercícios já encerrados. As novas notas de estados e do DF são divulgadas em outubro, calculadas sobre as contas de 2025. O resultado de 2026 só entra na Capag de 2027.
O que o GDF anunciou sobre as contas de 2026?
Em 7 de agosto, a governadora Celina Leão e o secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, informaram reversão do déficit identificado em março e projeção de superávit de R$ 3 bilhões, podendo chegar a R$ 5 bilhões.
Por que a nota da Capag importa?
Entes com nota A ou B obtêm aval da União para contratar crédito com garantia federal, o que reduz o custo do financiamento. Com nota C ou D, o acesso fica restrito.








