O Ministério da Saúde ativou nesta terça-feira (4) um serviço de teleatendimento em saúde mental voltado a quem tem problemas com jogos e apostas, dentro do aplicativo Meu SUS Digital. A capacidade anunciada é de até 100 mil atendimentos remotos por mês, e o serviço também aceita familiares de apostadores, não apenas quem aposta.
O atendimento é feito à distância por psicólogos, enfermeiros e outros profissionais de saúde capacitados para o tema, e o ministério afirma que o contato é sigiloso. A entrada no serviço passa por um autoteste dentro do próprio aplicativo, que direciona o usuário conforme o resultado.
Como acessar pelo aplicativo
O caminho dentro do Meu SUS Digital tem oito passos:
- Abrir o aplicativo Meu SUS Digital com a conta Gov.br.
- Tocar em “Miniapps”.
- Selecionar “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”.
- Fazer o autoteste.
- Seguir para a plataforma AgSUS, para onde o app direciona.
- Aceitar o termo de uso e preencher o formulário.
- Informar os dados cadastrais e escolher a forma de contato.
- Guardar o número de protocolo gerado pelo sistema.
O protocolo é o que permite acompanhar a solicitação. O serviço não exige encaminhamento prévio de unidade básica de saúde nem agendamento presencial.
O tamanho do problema
Os números que o ministério usou para justificar o serviço vêm do próprio comportamento do apostador. Um milhão de pessoas já pediram autoexclusão do CPF das plataformas de aposta, mecanismo que bloqueia o acesso do usuário aos sites regulamentados. Entre quem pediu o bloqueio, 35% citaram perda de controle como motivo.
O pico ficou concentrado na Copa do Mundo: 387.645 bloqueios foram registrados durante o torneio, o equivalente a 38% do total. A concentração mostra o efeito de um calendário esportivo intenso sobre o volume de apostas e sobre a procura por mecanismos de contenção.
“Muitas vezes, as pessoas não procuram ajuda por vergonha ou estigma. Com o autoteste e o teleatendimento, elas podem”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Por que o formato é remoto
A escolha pelo atendimento à distância responde a duas barreiras típicas do tema. A primeira é o constrangimento de procurar uma unidade de saúde para falar de dívida com aposta, que faz parte da rotina de quem trabalha em centros de atenção psicossocial. A segunda é a capilaridade: um serviço remoto alcança regiões onde não há equipe especializada em dependência comportamental.
O jogo patológico é reconhecido como transtorno na Classificação Internacional de Doenças e entra na rede de saúde mental pela mesma porta de outras dependências. Na prática, o teleatendimento funciona como triagem e acolhimento inicial, e os casos que exigem acompanhamento continuado seguem para a rede presencial.
O que já mudou na regulação
O serviço chega depois de uma sequência de medidas sobre o setor. Em julho, entraram em vigor as regras que obrigam as plataformas a exibir alertas na publicidade das bets, com aviso sobre risco de perda financeira e sobre a proibição para menores de 18 anos. No mesmo mês, foi sancionada a lei que destina parte da arrecadação das apostas a fundos públicos.
A autoexclusão citada pelo ministério é um mecanismo previsto na regulamentação do setor: o apostador solicita o bloqueio do próprio CPF e as plataformas autorizadas ficam impedidas de aceitar novas apostas dele. O pedido não alcança sites que operam fora da regulamentação, e essa é a principal limitação da ferramenta.
Quem pode usar
O serviço está aberto a qualquer pessoa com conta Gov.br que identifique problema relacionado a jogos e apostas, e também a familiares. Não há restrição por faixa de renda nem exigência de comprovação de dívida. O ministério orienta que o familiar procure o atendimento mesmo quando o apostador se recusa a buscar ajuda, porque parte da abordagem é orientar a família sobre como conduzir a conversa e como proteger o orçamento doméstico.
Em situação de crise com risco à vida, o encaminhamento continua sendo o Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188, que atende 24 horas e de forma gratuita, ou a unidade de urgência mais próxima.
Como o serviço se encaixa na rede
O teleatendimento não substitui o acompanhamento presencial. Ele funciona como porta de entrada: o autoteste organiza a demanda, o profissional faz o acolhimento à distância e, quando o quadro exige tratamento continuado, o encaminhamento segue para os serviços de saúde mental do município ou do DF, entre eles os centros de atenção psicossocial, que são a referência para dependências.
Na prática, o ganho está na primeira conversa. Quem convive com endividamento por aposta costuma adiar a busca por ajuda até o problema aparecer em conta atrasada, empréstimo consignado ou conflito familiar. Um canal que dispensa fila e deslocamento encurta o tempo entre reconhecer o problema e falar com um profissional, que é onde a maior parte dos casos se perde.
Para o familiar, a orientação prática é a mais buscada: como abordar sem confronto, como identificar sinais de recaída e quais medidas tomar para reduzir o dano financeiro enquanto o tratamento não começa. Esse tipo de acompanhamento não exige presença do apostador e é oferecido no mesmo canal.
Perguntas frequentes
Quem pode usar o teleatendimento para apostas do Meu SUS Digital?
Qualquer pessoa com conta Gov.br que identifique problema relacionado a jogos e apostas, além de familiares de apostadores. Não há exigência de encaminhamento prévio nem comprovação de dívida.
O atendimento é gratuito?
Sim. O serviço integra o SUS e é oferecido pelo aplicativo Meu SUS Digital, sem custo para o usuário.
Quantos atendimentos o serviço comporta?
O Ministério da Saúde informou capacidade de até 100 mil teleatendimentos por mês, com início em 4 de agosto de 2026.
O que é a autoexclusão do CPF nas apostas?
É o pedido do próprio apostador para bloquear seu CPF nas plataformas regulamentadas, que ficam impedidas de aceitar novas apostas dele. O bloqueio não alcança sites que operam fora da regulamentação.








