Deputado alvo da PF por R$ 14,7 milhões declarou R$ 14 mil à Justiça Eleitoral

agosto 7, 2026
O deputado federal Euclydes Pettersen discursa na tribuna do plenário da Câmara dos Deputados, ao lado da bandeira do Brasil

O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), indiciado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 14 mil ao pedir registro de candidatura para as eleições de outubro. O relatório da PF aponta que o parlamentar teria recebido cerca de R$ 14,7 milhões em propina no esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS.

O único bem informado na primeira declaração foi uma motocicleta Honda 2018, avaliada em R$ 14 mil. O valor representa queda de 99,7% em relação aos R$ 5,278 milhões que o próprio deputado declarou na eleição de 2022. A informação foi revelada pela coluna Grande Angular, do Metrópoles, em 5 de agosto.

A correção pedida depois da reportagem

Após a publicação, a defesa do deputado protocolou petição no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) pedindo a substituição da declaração de patrimônio por uma nova relação de bens, dessa vez de R$ 6.844.408,44.

A justificativa apresentada foi de erro operacional. Segundo a defesa, houve “uma falha da equipe no cadastramento das informações” no Candex, o sistema usado pela Justiça Eleitoral para o registro de candidaturas, e apenas um bem acabou lançado. A defesa sustenta que a declaração patrimonial foi entregue dentro do prazo e que a falha ocorreu na inserção dos dados.

Por que a declaração de bens importa

A declaração de patrimônio é obrigatória no pedido de registro e fica disponível para consulta pública no sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela cumpre duas funções: dá transparência ao eleitor sobre a situação financeira de quem disputa o cargo e serve de linha de base para comparação entre eleições.

É justamente essa comparação que costuma acender alerta em investigações de enriquecimento ilícito. A variação de patrimônio entre dois pleitos, confrontada com a renda declarada no período, é um dos indicadores usados por Ministério Público e polícia para pedir quebra de sigilo fiscal e bancário.

Informação falsa na declaração pode gerar consequências em duas frentes. Na esfera eleitoral, abre caminho para representação por abuso e para questionamento do registro. Na esfera penal, pode configurar falsidade ideológica eleitoral, prevista no artigo 350 do Código Eleitoral, com pena de até cinco anos de reclusão quando o documento é público. A retificação espontânea antes do julgamento do registro tende a ser aceita pelos tribunais quando o candidato demonstra erro material.

Onde o eleitor consulta os bens do candidato

Todas as declarações patrimoniais entregues no registro ficam abertas ao público no DivulgaCandContas, no site do TSE. Basta escolher a eleição, o estado e o cargo para ver a relação de bens de cada candidato, item a item, com o valor informado por ele. A mesma página traz a prestação de contas de campanha, com doadores e despesas, atualizada ao longo do período eleitoral.

A base é a mesma usada por jornalistas e por órgãos de controle para comparar patrimônio entre pleitos. Como o preenchimento é feito pela própria campanha, erro de digitação e omissão aparecem com frequência, e a Justiça Eleitoral admite retificação enquanto o pedido de registro não é julgado.

O que é a Operação Sem Desconto

A Operação Sem Desconto apura o esquema de descontos associativos indevidos aplicados sobre aposentadorias e pensões do INSS. A investigação identificou entidades que firmaram acordos de cooperação técnica com o instituto e passaram a debitar mensalidades de segurados que dizem nunca ter autorizado a cobrança.

O caso é uma das principais frentes de investigação em curso na Polícia Federal e no Supremo Tribunal Federal em 2026, com desdobramentos que já alcançaram ex-dirigentes do INSS, entidades de classe e parlamentares. No Congresso, a CPMI do INSS acompanha o tema em paralelo.

Segundo o relatório de indiciamento, os valores atribuídos a Pettersen teriam chegado a ele por empresas de fachada e repasses fracionados, método usado para dificultar o rastreamento. O indiciamento é uma conclusão da polícia: cabe à Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia e ao Judiciário decidir se a recebe. Até que haja condenação definitiva, vale a presunção de inocência.

O caso não impede, por si só, que o deputado dispute a reeleição. A Lei da Ficha Limpa torna inelegível quem foi condenado por órgão colegiado ou em decisão transitada em julgado por um rol específico de crimes, o que não é a situação de quem foi apenas indiciado. A análise da elegibilidade é feita pela Justiça Eleitoral no julgamento do pedido de registro, e o Ministério Público Eleitoral e outros partidos podem apresentar impugnação nessa fase.

Leia também: Operação Sem Desconto: PF cumpre 18 mandados no DF e no Maranhão.

Perguntas frequentes

Quanto o deputado Euclydes Pettersen declarou de patrimônio em 2026?

Na primeira declaração, R$ 14 mil, referentes a uma motocicleta Honda 2018. Depois da repercussão, a defesa pediu ao TRE-MG a substituição por uma relação de R$ 6.844.408,44.

O que a defesa alegou?

Que houve uma falha da equipe no cadastramento das informações no sistema Candex, da Justiça Eleitoral, e que apenas um bem foi lançado. A defesa afirma que a declaração foi entregue dentro do prazo.

Quanto a PF aponta que ele teria recebido?

Cerca de R$ 14,7 milhões em propina no esquema apurado pela Operação Sem Desconto, segundo o relatório de indiciamento.

Declarar patrimônio errado pode cassar a candidatura?

A informação falsa pode gerar representação na esfera eleitoral e configurar falsidade ideológica eleitoral na esfera penal. A retificação espontânea antes do julgamento do registro costuma ser aceita quando o candidato demonstra erro material.

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