A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou nesta terça-feira (18) a Operação Ilusão Digital contra um esquema que usava vídeos falsos de artistas e jornalistas, produzidos com inteligência artificial, para vender um suposto medicamento contra disfunção erétil a vítimas do DF e de outros estados. Um mandado de busca e apreensão foi cumprido em Guarulhos, em São Paulo.
O produto vendido pelo grupo é o suplemento Erec Power, anunciado como natural e sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os cantores Almir Sater e Fagner e o jornalista Alexandre Garcia estão entre as figuras públicas que tiveram rosto e voz manipulados nos anúncios, segundo a investigação.
Como o golpe funcionava
Nos vídeos, os famosos apareciam relatando problemas de saúde que nunca declararam e recomendando o produto. A montagem era feita com inteligência artificial, técnica conhecida como deepfake, que reproduz o rosto e a entonação da pessoa a partir de material público disponível na internet.
A peça circulava como anúncio em redes sociais. Convencida pela credibilidade do nome estampado no vídeo, a vítima comprava o suplemento pela internet e recebia a entrega em casa. A investigação identificou compradores no Distrito Federal e em vários estados, o que caracteriza o caso como crime cibernético de alcance nacional.
O suspeito localizado em Guarulhos confessou aos investigadores que produzia o conteúdo manipulado e detalhou o funcionamento do esquema, segundo a PCDF. O caso está a cargo da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC).
“Uma coisa que chama atenção é que ele comercializava esses produtos sem autorização legal”, afirmou o delegado-chefe da DRCC, João Guilherme.
Os crimes apurados
A soma das condutas investigadas pode levar a uma pena máxima de 28 anos de prisão, segundo a PCDF. A apuração considera quatro tipos penais.
- Estelionato qualificado por meio eletrônico, quando a fraude é praticada com uso de dispositivo ou rede social
- Comercialização ilegal de medicamentos, por vender produto sem registro sanitário
- Associação criminosa, pela atuação de mais de uma pessoa de forma estável
- Falsidade ideológica, pela atribuição de declarações a pessoas que nunca as deram
Uso de imagem sem autorização
A manipulação da imagem e da voz de uma pessoa sem consentimento também abre caminho para ação civil por parte de quem foi retratado, com pedido de indenização por dano moral e remoção do conteúdo. No caso dos anúncios, os artistas não têm relação com o produto nem com a empresa que o vendia.
Golpes desse tipo cresceram junto com a facilidade de gerar vídeos convincentes. Em maio, a PCDF já havia prendido no DF um suspeito de aplicar golpes com anúncios falsos em redes sociais que usavam fotos criadas por inteligência artificial. Em julho, outra investigação apurou a criação de conteúdo íntimo falso com a mesma tecnologia.
Como não cair
A orientação da PCDF é desconfiar de qualquer medicamento vendido fora de farmácia e sem registro sanitário, ainda que a propaganda traga um rosto conhecido. A checagem do registro é gratuita e feita em poucos segundos.
- Consulte o registro do produto no site da Anvisa antes de comprar
- Desconfie de anúncio que promete efeito rápido para disfunção erétil, emagrecimento ou dor crônica
- Procure o perfil oficial do artista: quem é usado em deepfake costuma publicar desmentido
- Repare em falhas de sincronia entre a boca e a voz, piscadas raras e trechos com áudio metálico
- Nunca compre remédio por link recebido em rede social ou aplicativo de mensagem
- Registre ocorrência na Delegacia Eletrônica da PCDF se já tiver comprado
Medicamento sem registro traz risco à saúde porque não passou por avaliação de composição, dose e efeito adverso. Produtos que prometem tratar disfunção erétil costumam conter substâncias de venda controlada, que interagem com remédios para pressão e coração.
A PCDF tem feito operações seguidas contra fraudes digitais no DF. Em agosto, a corporação também deflagrou a Operação Reflexo, contra um golpe de venda de celulares que nunca eram entregues.
A investigação da Operação Ilusão Digital continua para identificar os demais integrantes do grupo e o volume financeiro movimentado. A polícia não divulgou o número de vítimas, o valor total arrecadado com as vendas nem o nome da empresa usada para faturar os pedidos. As informações foram divulgadas pelo Correio Braziliense e pelo Metrópoles nesta terça-feira (18).








