Uma mulher em situação de rua foi morta a facadas na manhã desta quinta-feira (13) na QNN 3, em Ceilândia Norte, e a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apura o caso como feminicídio. A vítima foi socorrida em estado grave e morreu no Hospital Regional de Ceilândia (HRC).
O acionamento chegou ao Corpo de Bombeiros por volta das 5h50. A mulher foi encontrada atrás do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 35, em uma área conhecida na região como ponto de tráfico e consumo de drogas. Ela chegou ao hospital em parada respiratória, passou por tentativa de reanimação e não resistiu aos ferimentos.
Até a publicação desta reportagem a vítima não havia sido identificada. A investigação está com a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) II, unidade responsável pela apuração de crimes contra mulheres na região.
O intervalo entre a agressão e o socorro
Segundo relatos de testemunhas colhidos no local, a discussão que antecedeu o ataque começou por volta das 4h. O socorro só foi acionado cerca de uma hora depois, quando uma pessoa que passava pelo local pediu que alguém chamasse o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Esse intervalo entre a agressão e o atendimento é um dos pontos que a perícia deve esclarecer, porque interfere diretamente na cadeia de causa da morte e na reconstituição da dinâmica do crime. Nenhum suspeito havia sido preso até a manhã desta sexta-feira (14).
Quando o caso é tratado como feminicídio
A qualificadora do feminicídio está no artigo 121 do Código Penal e se aplica ao homicídio praticado contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, o que inclui violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Desde 2024, o feminicídio é tipo penal autônomo, com pena de reclusão de 20 a 40 anos.
Na prática, a classificação inicial do caso como feminicídio orienta a linha de investigação: a apuração passa por uma delegacia especializada, ouve pessoas do convívio da vítima e busca reconstruir o histórico de violência anterior, mesmo quando não há registro formal de ocorrência.
Mulheres em situação de rua estão entre as que menos acessam a rede formal de proteção. Sem endereço fixo, documento ou vínculo com serviços públicos, a maior parte das agressões sofridas por esse grupo não chega a virar boletim de ocorrência, o que torna o histórico de violência mais difícil de reconstruir depois.
O DF mantém serviços de abordagem social que fazem contato com pessoas em situação de rua e oferecem encaminhamento para unidades de acolhimento, os Centros Pop. A adesão é voluntária, e parte das pessoas em situação de rua recusa o acolhimento por não querer se separar de companheiros, de animais ou dos poucos pertences que carrega.
Onde denunciar violência contra a mulher no DF
- Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas, é gratuita e aceita denúncia anônima, inclusive de terceiros.
- 190: acionamento imediato da Polícia Militar em caso de agressão em curso.
- 197: Disque Denúncia da PCDF, para informações que ajudem em investigações.
- Delegacias da Mulher (DEAM I e II): registro de ocorrência e pedido de medida protetiva de urgência.
- Casa da Mulher Brasileira: reúne delegacia, Ministério Público, Defensoria e acolhimento no mesmo endereço, no Riacho Fundo I.
Qualquer pessoa pode acionar a proteção da Lei Maria da Penha em nome da vítima quando ela não tem condições de fazê-lo, inclusive vizinhos e testemunhas. A medida protetiva de urgência pode ser pedida na delegacia, sem advogado, e o pedido deve ser encaminhado ao juiz em até 48 horas.
O DF ampliou nos últimos meses o alcance dos dispositivos de proteção às vítimas. Em agosto, o programa Viva Flor chegou a 13 delegacias do DF com o botão do pânico, equipamento que aciona a PMDF quando a mulher sob medida protetiva se sente ameaçada.
O que acontece agora
A PCDF vai analisar imagens de câmeras de segurança da região, ouvir moradores e comerciantes da QNN 3 e trabalhar na identificação da vítima, passo necessário para localizar pessoas do seu convívio. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) deve indicar a quantidade e a localização das lesões, elementos que ajudam a caracterizar a motivação do crime.
A corporação não divulgou prazo para a conclusão do inquérito. Denúncias sobre o caso podem ser feitas pelo 197 ou pelo aplicativo da PCDF, com garantia de anonimato.








