dom, 25 out

Dengue em nível epidêmico já atinge 292 microrregiões, o dobro de 2006, mostra Fiocruz

Estudo da Fiocruz mostra que as microrregiões com dengue epidêmica passaram de 110 para 292 entre 2006 e 2024; calor e anomalias térmicas explicam a alta.

Por Redação Sou Brasília 3 min de leitura
Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, picando a pele humana em foto de arquivo
Foto: USDA/Wikimedia Commons (domínio público)
Neste texto3 tópicos
  1. Dengue: o que o estudo mediu
  2. Oropouche, leptospirose, hantavírus e fungos
  3. O que isso muda para o DF

Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que o número de microrregiões brasileiras com nível epidêmico de dengue mais que dobrou entre 2006 e 2024, de 110 para 292, o equivalente a 54% do país. A principal explicação do estudo são as anomalias térmicas, períodos de temperatura muito fora do padrão de cada lugar, segundo reportagem da Agência Brasil publicada neste domingo (25).

O resultado interessa a quem mora no Distrito Federal por um motivo concreto: a dengue deixou de ficar restrita às regiões quentes, e outras doenças ligadas a calor, seca e enchente avançam pelo mapa do país. O DF, que tem períodos de estiagem longos e chuva concentrada, entra nessa conta.

Dengue: o que o estudo mediu

Até a década de 1980 o Brasil já tinha surtos, mas o Rio Grande do Sul só registrou transmissão sem origem em outro estado em 2007. O clima funcionava como barreira para o Aedes aegypti, mosquito que vive melhor em lugares quentes e úmidos. Em 2024, ano recorde da doença, o estado teve quase 210 mil casos confirmados e 281 mortes. A Bahia, mais quente e com 3 milhões de habitantes a mais, somou cerca de 163 mil casos e 188 mortes.

Os autores do estudo escrevem que a expansão da área de transmissão "parece ser irreversível": uma vez que vírus e mosquito se instalam, é improvável voltar a transmissão zero.

O infectologista Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, explica que o calor mexe em todas as fases do inseto. Os ovos resistem por anos e eclodem com umidade e temperatura altas. Com muito calor, o mosquito adulto bate as asas mais rápido, gasta mais energia, pica mais para se alimentar e transmite mais a doença.

Oropouche, leptospirose, hantavírus e fungos

A febre do Oropouche, que circulava quase só na Amazônia até 2023, causou mais de 12 mil infecções no ano passado, em 23 estados e no Distrito Federal, de acordo com a reportagem. A relação com o clima ainda está sob investigação.

Granato lembra que enchentes e secas abrem outras portas. No Rio Grande do Sul, depois das chuvas do desastre de 2024, a leptospirose passou a aparecer com muito mais frequência. A água da enxurrada se mistura ao esgoto e pode levar bactérias gastrointestinais e o vírus da hepatite A a quem bebe ou lava alimentos com ela. Nas queimadas, animais da floresta migram para perto das casas. O caso mais grave é o hantavírus: desde 2016 foram confirmadas 530 infecções no país, com 212 mortes, letalidade de 40%.

A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo, alerta para os fungos. Como 95% das espécies do ambiente não crescem na temperatura do corpo humano, o aquecimento do meio faz alguns se adaptarem. A Candida auris tem 24 ocorrências em 15 estados desde o primeiro registro, em 2020, na Bahia, todas em unidades de saúde. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram. Quando o fungo chegou à corrente sanguínea, a letalidade foi de 82%.

O que isso muda para o DF

A reportagem não traz números do Distrito Federal para o estudo. No acompanhamento local do SouBrasília, a dengue caiu no DF em 2026 e a Câmara Legislativa aprovou repelentes gratuitos para famílias de baixa renda. Na leitura de Granato, o alerta aumenta com a previsão de que o Brasil seja atingido pelo El Niño, que favorece secas e enchentes. O indicador da OMS já tratava a dengue como termômetro do clima.

Quem tem febre alta, dor atrás dos olhos e manchas na pele deve procurar uma unidade básica de saúde ou uma UPA. Eliminar água parada em vasos, pneus e calhas continua sendo a medida ao alcance de cada casa.

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