O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou no domingo (12) a substituição da primeira-ministra Yulia Svyrydenko e a maior reforma de governo desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. A mudança atinge o comando político de Kiev em meio à pressão militar no front e ao desgaste do maior escândalo de corrupção da história recente do país, segundo as agências internacionais que acompanharam o anúncio.
Svyrydenko comandava o governo desde julho de 2025. Antes de chegar ao posto, foi vice-chefe do gabinete presidencial e vice-primeira-ministra responsável por desenvolvimento econômico e comércio, função em que participou das negociações econômicas com os Estados Unidos. Foi ela quem conduziu, no primeiro semestre de 2025, o acordo de minerais com Washington, que criou um fundo conjunto de investimentos para a reconstrução ucraniana.
Economista de formação, Svyrydenko assumiu o gabinete em julho de 2025 no lugar de Denys Shmyhal, que deixou o posto após cinco anos como premiê e foi deslocado para o Ministério da Defesa. Um ano depois, é ela quem sai na segunda grande reorganização do governo em plena guerra.
Zelensky afirmou que a reestruturação busca reforçar as áreas que considera estratégicas para os próximos meses: a cooperação militar com os Estados Unidos, as negociações de adesão à União Europeia e as relações com países vizinhos e parceiros internacionais.
“Sou grato a Yuliia por seu trabalho claro, constante e eficaz como primeira-ministra”, declarou o presidente, que ofereceu a ela o comando de “uma nova e importante área de relações com um parceiro-chave”, sem detalhar qual será a função.
Caso Midas pressiona Kiev
A troca ocorre meses depois de o chamado caso Midas vir a público. Investigações do órgão anticorrupção ucraniano, o Nabu, apontam um esquema de propinas estimado em US$ 100 milhões na Energoatom, a estatal de energia nuclear, com ramificações entre aliados próximos do presidente.
O escândalo já havia derrubado o então chefe de gabinete Andriy Yermak, braço direito de Zelensky, no fim de 2025, e alimentou questionamentos internos sobre a condução política do esforço de guerra. A reforma anunciada agora é lida em Kiev como resposta a essa crise de confiança.
O caso foi revelado pelo Nabu em novembro de 2025 a partir de contratos da estatal nuclear e derrubou ministros e empresários do círculo próximo do poder. Desde então, cresceu a pressão de parlamentares e de parceiros ocidentais por uma renovação da equipe. A União Europeia trata o combate à corrupção como condição central do processo de adesão, o que dá à reforma um peso que vai além da política interna.
O que muda no governo
O pacote anunciado pelo presidente vai além da troca de premiê. Os principais pontos são:
- Substituição de Yulia Svyrydenko no comando do gabinete de ministros;
- Mudanças nas chefias de agências de segurança pública;
- Prioridade para a cooperação militar com os Estados Unidos e para a adesão à União Europeia;
- Reforço das relações com países vizinhos e parceiros que sustentam a defesa ucraniana.
Zelensky não anunciou um sucessor. Parlamentares ouvidos pela imprensa local citam três nomes cotados: o ex-premiê Denys Shmyhal, o ministro Mykhailo Fedorov e o presidente da estatal de energia Naftogaz, Serhiy Koretskyi.
Próximos passos
Pela legislação ucraniana, a saída da primeira-ministra precisa ser aprovada pelo Parlamento, a Rada Suprema, e implica a queda formal de todo o gabinete. A data da votação não foi anunciada. Até a posse da nova equipe, os atuais ministros seguem no exercício dos cargos.
A reforma acontece com a guerra se aproximando do quinto ano e com a adesão à União Europeia tratada por Kiev como principal aposta de longo prazo, tanto para a reconstrução da economia quanto para a segurança do país. O desempenho do novo gabinete nessas duas frentes deve definir o fôlego político de Zelensky daqui para a frente.
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