A Polícia Civil do Distrito Federal prendeu 11 pessoas na quinta-feira (11) em operação contra um grupo suspeito de agiotagem e extorsão que movimentou mais de R$ 10 milhões entre janeiro e agosto de 2025. A Operação Iustitia Victis teve como principal alvo feirantes e pequenos comerciantes, com concentração na Feira dos Goianos, em Taguatinga.
Segundo a PCDF, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de bloqueio de ativos financeiros. O valor bloqueado chegou a R$ 10.178.544, em contas de 14 pessoas físicas e três empresas. Uma investigada segue foragida.
Juros acima de 20% ao mês e cobrança diária
A investigação aponta empréstimos que variavam de R$ 5 mil a R$ 35 mil, com juros acima de 20% ao mês. A cobrança era feita todos os dias, em valores de R$ 100 a R$ 200, direto na banca do comerciante.
O método tem nome próprio no jargão da atividade. O coordenador da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), delegado Rogério Henrique Oliveira, descreveu a prática:
“É uma modalidade conhecida na agiotagem como ‘pinga-pinga’, na qual o grupo se aproveita de pessoas vulneráveis, com baixa escolaridade, e passa a extorquir.”
A cobrança diária é o que torna a dívida impagável. Como o pagamento incide quase inteiramente sobre os juros, o valor principal permanece de pé por meses, e o comerciante segue entregando parte do faturamento sem reduzir o saldo devedor.
A denúncia que abriu a investigação
O caso chegou à PCDF pela denúncia da filha de um comerciante de 68 anos que tirou a própria vida em 21 de março de 2025. A família relatou à polícia a pressão das cobranças sofridas por ele.
A partir desse relato, a Corpatri, com apoio da Divisão de Repressão a Sequestros (DRS), mapeou a rede de empréstimos e identificou outras vítimas no mesmo perfil: trabalhadores de feira, com renda diária e pouco acesso a crédito bancário.
Todos os investigados são tratados como suspeitos e respondem em liberdade ou prisão a depender da decisão judicial de cada caso, sem condenação definitiva até o momento.
Atuação em três unidades da federação
- Operação: Iustitia Victis, deflagrada em 11 de setembro de 2026
- Presos: 11 investigados; uma pessoa segue foragida
- Mandados: 18 de busca e apreensão
- Bloqueios: 17 ordens, somando R$ 10.178.544
- Área de atuação: Distrito Federal, Goiás e Tocantins
- Juros apurados: acima de 20% ao mês
A extensão para Goiás e Tocantins indica que o grupo não se limitava às feiras do DF. A PCDF apura se os mesmos operadores atuavam em feiras e comércios de rua dos outros dois estados, com a mesma dinâmica de empréstimo pequeno e cobrança diária.
Por que o feirante é o alvo
O perfil das vítimas não é acidental. Quem trabalha em feira tem faturamento diário em dinheiro, precisa repor mercadoria toda semana e costuma ficar fora das linhas formais de crédito por não comprovar renda. Quando falta capital de giro, o empréstimo de rua aparece como a única opção disponível na hora.
A agiotagem é crime previsto na Lei 1.521/1951, que trata dos crimes contra a economia popular, e a cobrança com ameaça configura extorsão, com pena que chega a dez anos de prisão. Denúncias podem ser feitas pelo 197 ou pela Delegacia Eletrônica da PCDF, com garantia de sigilo.
A operação se soma a outras ações patrimoniais da corporação no semestre, como a Operação Circuito dos Metais, que bloqueou R$ 56,8 milhões em esquema de fraude fiscal com sucata.
Próximos passos
Os presos passam por audiência de custódia e a PCDF segue no rastreamento dos valores bloqueados, que podem ser usados para reparar as vítimas identificadas no inquérito. A corporação pede que comerciantes que tenham tomado empréstimo do grupo procurem a Corpatri, mesmo que a dívida já esteja quitada.
Se você está passando por sofrimento emocional, ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV) no 188. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas.








