PCDF apura morte de professora após injeção em salão de Ceilândia

setembro 12, 2026
Profissional de saúde segura seringa preparada para aplicação

A Polícia Civil do Distrito Federal investiga a morte da professora Lidiane Gomes de Souza Alves, de 50 anos, ocorrida no sábado, 5 de setembro, horas depois de ela receber uma injeção de complexo vitamínico em um salão de beleza no Setor P, em Ceilândia. O caso está na 23ª Delegacia de Polícia.

Segundo o relato da família à polícia, Lidiane procurou o estabelecimento para um procedimento indicado contra a queda de cabelo. A aplicação foi feita por via injetável, na região glútea. Ela deixou o salão por volta das 16h e, cerca de duas horas depois, já em casa, começou a sentir falta de ar e mal-estar. Não resistiu.

O que a polícia apreendeu no salão

Agentes da 23ª DP recolheram seringas, frascos e caixas com substâncias diferentes no estabelecimento. Entre os materiais apreendidos estão:

  • nicotinamida, uma das formas da vitamina B3;
  • ácido hialurônico;
  • colágeno de placenta de ovelha;
  • combinação de niacinamida com peptídeos;
  • GHK-Cu, um peptídeo associado ao cobre.

O delegado Petter Ranquetat, responsável pelo caso, afirmou que a investigação ainda não conseguiu identificar qual substância desencadeou a reação alérgica fatal. A dificuldade tem um motivo concreto: a professora havia passado por outros procedimentos químicos capilares antes, o que amplia o número de agentes possíveis.

A linha de apuração trabalha com a hipótese de choque anafilático. A causa da morte, no entanto, só será definida com o resultado dos exames periciais.

Nenhum indiciamento até agora

Ninguém foi indiciado. O inquérito apura as circunstâncias sob duas frentes possíveis, homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e exercício ilegal da medicina ou da farmácia, que se configura quando o procedimento é executado por quem não tem habilitação legal para isso.

O marido da professora, Valdeci Alves, disse que ela não tinha histórico de doença que explicasse o quadro.

“Ela não tinha nenhum problema de saúde, só bronquite asmática, desde criança. Não tomava nenhum remédio de uso contínuo.”

A conclusão do inquérito depende do laudo do Instituto Médico Legal e da análise laboratorial do material apreendido, etapas que costumam levar semanas.

O que dizem os dois tipos penais em análise

As duas hipóteses que a 23ª DP examina têm penas bem distintas no Código Penal:

  • Homicídio culposo (artigo 121, parágrafo 3º): detenção de um a três anos. Aplica-se quando a morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia, sem intenção de matar.
  • Exercício ilegal da medicina, arte dentária ou farmacêutica (artigo 282): detenção de seis meses a dois anos. Se o crime é praticado com fim de lucro, soma-se multa.

O enquadramento final depende do laudo pericial e da comprovação de quem aplicou a injeção e com qual habilitação. Enquanto o inquérito não é concluído, não há acusado formal no caso.

O limite entre salão de beleza e procedimento injetável

A distinção importa para entender o caso. Salão de beleza é estabelecimento de embelezamento, com atividade regulada como serviço pessoal. Procedimento injetável, mesmo quando envolve vitamina, é ato de saúde: depende de profissional habilitado, prescrição e estrutura preparada para atender uma intercorrência.

Uma reação anafilática grave evolui em minutos. O tratamento de primeira linha é a adrenalina injetável, que precisa estar disponível no local e ser aplicada por quem sabe reconhecer o quadro. Sem isso, o intervalo entre o primeiro sintoma e a parada respiratória pode ser curto demais para o socorro chegar.

Quem procura esse tipo de serviço tem como verificar três pontos antes de aceitar a aplicação: se o profissional tem registro em conselho de classe, se o produto tem registro na Anvisa e se o local mantém material de emergência. A ausência de qualquer um deles é motivo para recusar o procedimento.

Como denunciar

Denúncias sobre procedimentos de saúde executados fora de ambiente habilitado podem ser registradas na delegacia da região administrativa, pelo Disque-Denúncia 197 da PCDF ou na Vigilância Sanitária do DF, que fiscaliza estabelecimentos. Nos casos em que há suspeita de exercício ilegal da profissão, os conselhos regionais de medicina, farmácia e enfermagem também recebem representações.

A PCDF mantém operações recorrentes contra crimes praticados em estabelecimentos comerciais do DF. Na semana passada, a corporação prendeu 11 pessoas em ação contra agiotagem que movimentou R$ 10,1 milhões, em Taguatinga.

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