Merenda do DF tem 77 alimentos e nenhum do Cerrado, aponta estudo do IPEDF
Nota técnica do instituto de estatística do GDF mediu o que entra no prato de 400 mil estudantes e encontrou 77 tipos de alimento, nenhum deles nativo do bioma.

Neste texto6 tópicos
A rede pública do Distrito Federal compra 77 tipos de alimento para a merenda escolar e nenhum deles é fruto nativo do Cerrado. O dado está na Nota Técnica nº 2 do IPEDF Codeplan, o instituto de estatística do GDF, publicada em dezembro de 2025 e atualizada em junho de 2026, que mediu o que entra no prato de cerca de 400 mil estudantes.
A conta que o estudo levanta é grande. São 689 escolas atendidas, 388 mil estudantes que comem na escola todo dia e 9,3 milhões de refeições servidas por mês. O investimento anual, somada a verba federal do FNDE e a complementação do GDF, chega a R$ 222 milhões. Desse total, R$ 39 milhões vão para contratos com a agricultura familiar, 14 deles só de frutas e hortaliças, envolvendo mais de 800 produtores do DF e da região do entorno.
O estudo é assinado pela Coordenação de Estudos Ambientais do IPEDF, sob responsabilidade da coordenadora Aline da Nóbrega Oliveira, na diretoria comandada por Werner Bessa Vieira, com financiamento do Fundo Único de Meio Ambiente do DF. O documento completo tem 49 páginas e está aberto no site do instituto.

Por que nenhum fruto do Cerrado chega ao prato
Não é falta de lei. A Lei distrital 5.771, de 2016, já fixava o mínimo de 30% de compra da agricultura familiar para a merenda. Em 2023 ela foi alterada pela Lei 7.228, que criou uma prioridade explícita na "aquisição de frutos e produtos nativos do cerrado, bem como de alimentos orgânicos, diretamente da agricultura familiar, do empreendedor familiar ou de suas organizações, dos assentamentos da reforma agrária, das comunidades tradicionais e dos produtores rurais de orgânicos".
Também não é falta de planejamento no papel. O relatório de execução do programa de alimentação escolar do DF de 2022 e 2023 já indicava, para 2024, a "inserção dos frutos do cerrado nos cardápios" na categoria de aquisição de novos gêneros. O levantamento de campo do IPEDF encontrou o contrário: em 2025 esses produtos continuavam ausentes.
Dos 77 tipos entregues hoje, cinco são processados e dois são ultraprocessados, e 100% dos sucos servidos são naturais. O cardápio, portanto, não é ruim. Ele apenas ignora o bioma em que a cidade foi construída.
As dez travas que o estudo identificou
O IPEDF listou dez categorias de obstáculo, e a maior parte delas não é de dinheiro. Desconhecimento do bioma pelo corpo técnico das instituições. Desconhecimento da comunidade escolar. Falta de formação para quem cozinha. Falta de integração entre os atores de cada etapa. Desconhecimento das cadeias locais de comercialização. Inadequação de leis, editais e chamadas públicas. Ausência dos produtos do Cerrado nos editais de compra. Desconhecimento dos preços de referência. Falta de equipamento de conservação e processamento. E o décimo: o aluno não conhece o sabor.
Dois desses pontos travam a compra na origem. Sem preço de referência publicado, o gestor não consegue montar o edital. E sem o produto escrito no edital, o agricultor não tem a quem vender, mesmo existindo cooperativa no entorno que já comercializa pequi, baru, jatobá, babaçu, cagaita e buriti em forma de farinha, polpa e óleo.

Quais frutos teriam chance de entrar primeiro
O estudo aplicou um índice de potencial das espécies e validou o resultado em campo, na Chapada dos Veadeiros e em Arinos, em Minas Gerais. Oito frutos foram destacados para uso escolar: baru, pequi, jatobá, mangaba, cagaita, buriti, coquinho azedo e cajuzinho do cerrado. Entre eles, cinco aparecem no topo por já terem mercado formado e caber nas exigências sanitárias e nutricionais do programa federal: baru, pequi, jatobá, mangaba e cagaita.
Há um detalhe prático que pesa a favor. Farinha, polpa congelada e castanha duram mais que a fruta fresca, o que permite manter o item no cardápio fora da safra sem desrespeitar a sazonalidade. O que falta, diz o documento, é despensa e freezer com capacidade de estoque nas escolas.
O que já funciona a 300 quilômetros daqui
O IPEDF foi ver de perto quem resolveu o problema. Em Cavalcante, em Goiás, no mesmo bioma e dentro da região de influência de Brasília, a chamada pública municipal de 2024 pediu 150 quilos de castanha de baru, 200 quilos de farinha de buriti, 2.500 quilos de polpa de coquinho azedo, 2.000 quilos de polpa de umbu e 1.000 quilos de polpa de pequi. A cidade lançou duas chamadas separadas naquele ano, uma delas voltada às escolas da zona urbana, depois de reformular o edital com apoio técnico.
No Tocantins, uma central de cooperativas abastece escolas de Palmas e de outros 60 municípios. Em outro estado citado, produtos da Mata Atlântica chegam a cerca de 300 escolas, aproximadamente 15% da rede estadual.
Por onde o DF começaria
A recomendação não é trocar o cardápio de 400 mil alunos de uma vez. O estudo propõe piloto na educação infantil, começando pelas três escolas com berçário geridas pelo GDF ou pela regional de ensino com o menor número de estudantes, porque criança pequena aceita sabor novo com mais facilidade e porque a compra é financeiramente menor.
A segunda frente é o kit lanche. A rede distribui hoje suco, bolo industrializado, biscoito e mix de castanhas, e o próprio documento aponta que a castanha de baru cabe no mix e que a farinha de jatobá e a de baru cabem no biscoito, sem edital novo. A terceira é tirar a exigência do campo da discricionariedade: enquanto o fruto do Cerrado não estiver escrito no edital, ele depende da boa vontade de cada gestão. A meta sugerida é modesta de propósito, pelo menos uma aparição por mês no cardápio.
Há ainda um programa distrital que pode encurtar o caminho. O PAPA/DF, criado em 2012 para comprar direto do pequeno produtor, lançou três editais em 2024 que somaram mais de R$ 10 milhões. Desse valor, R$ 9,47 milhões foram para alimentação escolar, gastos em queijo mussarela e manteiga.
O que acompanhar daqui para a frente
O percentual mínimo de compra da agricultura familiar no programa federal está subindo de 30% para 45%, por força da Lei 15.226. Quanto maior essa fatia obrigatória, maior o espaço para o produto regional, e mais caro fica ignorar a cadeia que já existe no entorno de Brasília.
Quem quiser acompanhar o assunto pode ver como o reajuste de 2026 da merenda escolar elevou a cota da agricultura familiar e conhecer o acervo botânico que registra essas espécies no herbário do Jardim Botânico de Brasília, com 38.824 plantas do Cerrado. A próxima etapa concreta é o edital: se o fruto nativo não aparecer na próxima chamada pública da Secretaria de Educação, o cardápio de 2027 será igual ao de 2025.






