Contas automatizadas que curtem, comentam e compartilham em massa, se passando por pessoas reais, formam o que pesquisadores chamam de fazenda de cliques. A prática ganha peso na eleição de 2026 porque infla artificialmente o alcance de um conteúdo até que ele atravesse a rede artificial e chegue ao eleitor de verdade.
O mecanismo é simples de descrever e difícil de rastrear. Uma única operação administra milhares de perfis falsos. Esses perfis repetem a mesma expressão, impulsionam a mesma hashtag e interagem entre si em intervalo curto, criando volume e velocidade que o algoritmo das plataformas lê como sinal de relevância.
Como o esquema funciona
Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, descreveu o padrão à Agência Brasil.
“Muitas dessas contas repetem uma expressão e impulsionam uma hashtag, compartilham o mesmo conteúdo e interage entre si em pouco espaço de tempo. Com isso, produzem artificialmente volume e velocidade nas redes sociais”, afirmou o pesquisador.
Segundo ele, a operação busca dar o empurrão inicial para que o conteúdo alcance pessoas reais. Parte desses robôs consegue, inclusive, manter diálogo com usuários humanos.
Alexandre Arns Gonzales, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília e integrante do Direito à Comunicação e Justiça Racial (DiraCom), aponta o objetivo prático da manobra.
“Essas fazendas de cliques são utilizadas para tentar alimentar artificialmente essas métricas de visualização e engajamento, servindo de instrumento para fazer ataques ou defesas coordenadas”, disse.
O que já foi documentado
Operações desse tipo já foram desmontadas em escala internacional. Em junho de 2020, o Facebook derrubou mais de 900 páginas ligadas a uma rede que atuava a partir da Tunísia. O Laboratório de Pesquisa Forense Digital registrou que cerca de 3,8 milhões de contas seguiam uma ou mais dessas páginas, com quase 132 mil grupos administrados pela operação.
No Brasil, o episódio mais citado é o de 2018, quando uma informação falsa alcançou 30 milhões de usuários e atingiu um dos candidatos à Presidência.
Meta e Google classificam a prática sob o rótulo de redes de comportamento inautêntico coordenado, categoria que também abrange contas operadas por pessoas reais em coordenação disfarçada.
Onde entram o TSE e as plataformas
Gonzales avalia que os planos de conformidade que o Tribunal Superior Eleitoral passou a exigir das grandes plataformas podem servir de instrumento para identificar e denunciar indícios de fazendas de bots.
“Se essas fazendas de bots atacarem a lisura do processo eleitoral, os sistemas de identificação de comportamentos inautênticos da Meta, do Google e do TikTok podem identificar”, afirmou.
Aragon é mais cético quanto a delegar a tarefa às empresas. Para o pesquisador, o combate exige investigação policial ou trabalho de entidades da sociedade civil, porque depender das plataformas equivaleria a entregar a elas a regulação da informação em circulação.
O TSE não se manifestou até o fechamento da reportagem da Agência Brasil, publicada em 24 de agosto.
O que a regra eleitoral já prevê
A propaganda na internet é regida pela Resolução 23.610/2019 do TSE, alterada em março de 2026 pela Resolução 23.755. A norma obriga as plataformas a remover imediatamente conteúdo que viole as regras eleitorais, a manter planos de conformidade para mitigar riscos e a abrir canal específico para denúncias de partidos e candidatos.
Perfis comprovadamente falsos, anônimos ou operados por robôs podem ser banidos das plataformas após decisão judicial. Já a divulgação de propaganda irregular na internet sujeita o responsável à multa prevista no artigo 57-D da Lei 9.504/97, que varia de R$ 5 mil a R$ 30 mil.
A dificuldade prática está na atribuição. Identificar que uma rede de perfis age de forma coordenada é diferente de provar quem a contratou e quem se beneficiou dela, etapa que depende de dados internos das plataformas ou de investigação criminal.
Sinais que o eleitor pode observar
Pelo padrão descrito pelos pesquisadores, alguns indícios ajudam a desconfiar de um perfil:
- conta criada há pouco tempo, com poucos seguidores e volume alto de publicações;
- repetição literal da mesma frase ou hashtag em contas diferentes;
- interação concentrada em janela curta, com dezenas de respostas quase simultâneas;
- ausência de conteúdo próprio, só compartilhamento e resposta.
O volume de audiência que circula nesse ambiente é grande. No Distrito Federal, 134 contas de candidatos somam 13,7 milhões de seguidores no Instagram. Veja o levantamento das contas de candidatos do DF.
Conteúdo que o eleitor considere irregular pode ser denunciado ao TSE e às próprias plataformas, que precisam manter canal específico para partidos e candidatos durante o período eleitoral.








