Entregadores de app no DF correm contra o algoritmo e contra o risco

agosto 10, 2026
Entregador de aplicativo apoiado em uma parede ao lado de bolsa térmica amarela

Os motociclistas responderam por 37 das 94 mortes registradas no trânsito do Distrito Federal até junho de 2026, de acordo com o Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF). O grupo concentra 40% das vítimas fatais das vias da capital neste ano.

Parte desse contingente trabalha para plataformas digitais. O Detran-DF tem 1,7 mil motociclistas cadastrados no DF com atividade remunerada, número que não alcança quem roda sem registro. No país inteiro, 455 mil pessoas atuavam no setor de entregas em 2025, segundo levantamento da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), entidade que representa iFood, Uber, 99 e Amazon.

A pressão por tempo de entrega aparece nas pesquisas como um dos motores das infrações. Mestre em engenharia de transportes e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Henrique Ribeiro associa a remuneração por viagem ao comportamento de risco.

“A remuneração por número de viagens, os algoritmos que impõem tempos de entrega exíguos e o uso constante do celular no guidão estimulam o excesso de velocidade e as infrações”, afirmou Ribeiro ao Correio Braziliense.

A frota mudou e o hospital sentiu

O peso da moto na frota brasileira cresceu em três décadas. “Nas últimas três décadas, a frota de motocicletas saltou de menos de 10% para quase 30% dos veículos automotores do Brasil”, disse o pesquisador do Ipea. Entre 2004 e 2024 foram registradas 5 milhões de infrações envolvendo motocicletas e motonetas no país.

O perfil dessas autuações ajuda a explicar a letalidade:

  • 43% por pilotagem sem capacete ou sem vestuário adequado;
  • 26% por capacete sem viseira ou óculos de proteção;
  • 25% por transporte de passageiro sem equipamento de segurança;
  • mais de 75% das vítimas são homens;
  • metade dos proprietários de moto não tem carteira na categoria A.

Mais da metade dos leitos dos hospitais de trauma do país é ocupada por acidentados de moto, segundo os dados citados na reportagem.

Autonomia em disputa

Para o presidente do Sindicato dos Motociclistas do DF (Sindmoto-DF), Luiz Carlos Garcia Galvão, a promessa de liberdade das plataformas não se sustenta. “A tal da autonomia é uma ilusão. O verdadeiro autônomo define seu preço, suas regras e sua jornada, o que não acontece no aplicativo”, declarou.

Especialista em gestão, educação e segurança viária, Wellington Matos aponta o uso indevido do corredor entre veículos. “O uso do corredor foi idealizado para momentos de trânsito parado e em baixa velocidade. No entanto, virou uma regra circular correndo ali, mesmo com a via fluindo normalmente”, disse.

Professor de engenharia de tráfego da UnB e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Paulo Cesar Marques da Silva vê limite na solução mais citada. “Os benefícios da faixa exclusiva são muito limitados e podem até aumentar os sinistros nas interseções, pois ampliam a diferença de velocidade entre os veículos”, afirmou.

O que dizem as plataformas e o Detran

A Amobitec informou que a segurança viária é diretriz prioritária na operação das associadas, que oferecem cobertura de seguro contra acidentes pessoais durante o cumprimento das rotas e preveem desativação de contas em caso de descumprimento das regras.

Gerente de Ação Educativa do Detran-DF, Magda Brandão lista recomendações básicas para quem trabalha sobre duas rodas: capacete afivelado e com viseira, roupa de proteção, revisão periódica de freio e pneu, distância de seguimento maior, atenção redobrada em cruzamento e recusa de corrida quando o cansaço aparece.

Entregadores que rodam na cidade descrevem a rotina em termos parecidos. “Nós quase morremos no trânsito todos os dias”, contou Vanusa da Silva, de 29 anos. Alessandro Santos, de 32, comparou os ganhos: “Trabalhava em farmácia e ganhava R$ 2.100 no mês. No aplicativo, tiro isso em quinze dias, mas a gente sofre demais”. Marcos Paulo Abreu, de 24, descreveu o desgaste da jornada longa: “É cansativo. A mente cansa, as pernas cansam”.

Responsabilidade em disputa na Justiça

Professor de Direito do Trabalho da UFRJ e procurador do trabalho no Rio de Janeiro, Rodrigo Carelli discute três pontos que voltam com frequência aos tribunais: se a flexibilidade oferecida pelas plataformas é real, quem responde quando o entregador se acidenta em serviço e em que medida o desenho do aplicativo induz o comportamento de risco.

A questão do vínculo continua sem definição uniforme. Turmas do Tribunal Superior do Trabalho decidiram em sentidos opostos sobre motoristas e entregadores de plataforma, e o Supremo Tribunal Federal reconheceu repercussão geral no tema, o que deve levar a uma tese única aplicável a todos os processos. Enquanto isso não ocorre, cada acidente é resolvido caso a caso.

O que fazer em caso de acidente

  • Acione o Samu pelo 192 e o Corpo de Bombeiros pelo 193;
  • Chame a Polícia Militar pelo 190 para o registro da ocorrência de trânsito;
  • Peça o boletim de ocorrência, documento exigido para qualquer pedido de indenização;
  • Comunique a plataforma pelo aplicativo no mesmo dia, porque os seguros contratados costumam exigir aviso em prazo curto;
  • Guarde comprovante das corridas do dia, que serve como prova de que o acidente ocorreu em serviço.

Próximos passos

A regulamentação do trabalho por aplicativo segue em discussão no Congresso Nacional, e o crédito para motoristas e entregadores de plataforma entrou na agenda do governo federal em agosto. Leia também: Lula cobra bancos por crédito a motoristas de aplicativo.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas morreram no trânsito do DF em 2026?

Foram 94 mortes nas vias do Distrito Federal até junho de 2026, segundo o Detran-DF. Desse total, 37 eram motociclistas.

Quantos motociclistas com atividade remunerada há no DF?

O Detran-DF tem 1,7 mil motociclistas cadastrados com atividade remunerada no Distrito Federal. O número não inclui quem trabalha sem registro.

As plataformas oferecem seguro aos entregadores?

Segundo a Amobitec, associação que representa iFood, Uber, 99 e Amazon, as empresas oferecem cobertura de seguro contra acidentes pessoais durante o cumprimento das rotas.

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