Perícia confirma morte de menino de 12 anos por choque no Itapoã

agosto 21, 2026
Via comercial movimentada do Itapoã, no Distrito Federal, com ônibus, carros e lojas

O laudo cadavérico de Erick Sousa Soares, de 12 anos, confirmou que o menino morreu por descarga elétrica ao tentar pegar uma bola embaixo de um trailer de lanches no Itapoã, no Distrito Federal. O resultado da perícia foi divulgado pela Polícia Civil nesta quinta-feira (20), quase um mês depois do acidente, ocorrido em 24 de julho.

A perícia feita no veículo encontrou uma sequência de irregularidades elétricas que, segundo a investigação, mantinham a estrutura do trailer energizada. Com o laudo em mãos, a polícia passou a tratar o proprietário, Hugo Moreira Rosa, como alvo de possível responsabilização criminal.

O que a perícia encontrou no trailer

De acordo com o delegado Bruno Carvalho, responsável pelo caso, uma tomada do trailer apresentava defeito e fuga de energia. O problema fazia com que a carcaça do veículo ficasse eletrificada para quem encostasse nela.

Os peritos também identificaram uma extensão que ligava o trailer a uma tomada dentro da casa do proprietário. A instalação improvisada não tinha os dispositivos de proteção exigidos em qualquer ligação elétrica residencial.

  • Tomada do trailer com defeito e fuga de corrente
  • Extensão puxada de dentro da residência do dono para alimentar o veículo
  • Ausência de fio terra na instalação
  • Ausência de dispositivo capaz de cortar a energia em caso de choque

É a soma desses elementos que sustenta a linha de investigação atual. Em entrevista à TV Globo, o delegado afirmou que o conjunto de falhas aponta para responsabilização do proprietário, mas que ainda falta definir o enquadramento.

“Essa sucessão de erros, todos esses fatores associados levam a uma responsabilização criminal do proprietário do trailer. Agora, a investigação segue no sentido de definir se esses elementos são capazes de configurar dolo ou culpa”, disse o delegado Bruno Carvalho.

A distinção entre dolo e culpa muda a acusação. No primeiro caso, há intenção ou assunção do risco de matar. No segundo, a morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia, com pena menor.

Testemunhas dizem que já haviam levado choque no local

Segundo o delegado, testemunhas ouvidas no inquérito relataram que o proprietário já sabia dos problemas elétricos do trailer. Algumas pessoas afirmaram ter levado choque ao encostar na estrutura antes da morte de Erick.

Esse ponto é decisivo para o rumo do processo. Conhecimento prévio do risco pesa na avaliação sobre a assunção deliberada do perigo, e é justamente o que a Polícia Civil ainda precisa demonstrar com provas.

A versão do dono do trailer

No dia da morte do menino, Hugo Moreira Rosa afirmou que não viu o momento do acidente e que encontrou Erick já caído no chão. Ele disse ter prestado socorro e negou que o veículo estivesse energizado, alegando que a extensão existia, mas não estava ligada.

“Ninguém sabe o que aconteceu. Eu fui o primeiro a pegar ele, então eu vi ele caído, não tem como eu especificar se ele escorregou, se ele levou um choque. Ninguém tem como saber, só a perícia”, declarou o proprietário à época.

Procurado após a divulgação do laudo, o dono do trailer não foi encontrado em casa e não atendeu às ligações da reportagem da TV Globo. Ele não tem, até o momento, defesa constituída divulgada publicamente.

Como foi o acidente de 24 de julho

Erick jogava bola com amigos na rua quando a bola parou embaixo do trailer estacionado. Ao se abaixar para pegá-la, o menino recebeu a descarga.

O Corpo de Bombeiros prestou os primeiros socorros e levou a vítima ao Hospital Regional do Paranoá. Erick não resistiu e morreu ainda no atendimento. O caso é apurado pela 6ª Delegacia de Polícia, no Paranoá.

O que muda agora

Com o laudo cadavérico e o laudo do local concluídos, o inquérito entra na fase de definição do enquadramento. A Polícia Civil precisa decidir se indicia o proprietário por homicídio culposo ou por conduta dolosa, hipótese mais grave que depende de comprovar que ele aceitou o risco de alguém morrer.

Depois do indiciamento, os autos vão ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, que decide se oferece denúncia à Justiça. Só a partir daí o caso passa a tramitar como ação penal.

Ligações elétricas improvisadas para alimentar trailers, food trucks e barracas de rua são frequentes no DF e escapam de fiscalização regular. Instalações desse tipo exigem aterramento e dispositivo diferencial residual, o chamado DR, que corta a corrente quando detecta fuga de energia.

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