O laudo cadavérico de Erick Sousa Soares, de 12 anos, confirmou que o menino morreu por descarga elétrica ao tentar pegar uma bola embaixo de um trailer de lanches no Itapoã, no Distrito Federal. O resultado da perícia foi divulgado pela Polícia Civil nesta quinta-feira (20), quase um mês depois do acidente, ocorrido em 24 de julho.
A perícia feita no veículo encontrou uma sequência de irregularidades elétricas que, segundo a investigação, mantinham a estrutura do trailer energizada. Com o laudo em mãos, a polícia passou a tratar o proprietário, Hugo Moreira Rosa, como alvo de possível responsabilização criminal.
O que a perícia encontrou no trailer
De acordo com o delegado Bruno Carvalho, responsável pelo caso, uma tomada do trailer apresentava defeito e fuga de energia. O problema fazia com que a carcaça do veículo ficasse eletrificada para quem encostasse nela.
Os peritos também identificaram uma extensão que ligava o trailer a uma tomada dentro da casa do proprietário. A instalação improvisada não tinha os dispositivos de proteção exigidos em qualquer ligação elétrica residencial.
- Tomada do trailer com defeito e fuga de corrente
- Extensão puxada de dentro da residência do dono para alimentar o veículo
- Ausência de fio terra na instalação
- Ausência de dispositivo capaz de cortar a energia em caso de choque
É a soma desses elementos que sustenta a linha de investigação atual. Em entrevista à TV Globo, o delegado afirmou que o conjunto de falhas aponta para responsabilização do proprietário, mas que ainda falta definir o enquadramento.
“Essa sucessão de erros, todos esses fatores associados levam a uma responsabilização criminal do proprietário do trailer. Agora, a investigação segue no sentido de definir se esses elementos são capazes de configurar dolo ou culpa”, disse o delegado Bruno Carvalho.
A distinção entre dolo e culpa muda a acusação. No primeiro caso, há intenção ou assunção do risco de matar. No segundo, a morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia, com pena menor.
Testemunhas dizem que já haviam levado choque no local
Segundo o delegado, testemunhas ouvidas no inquérito relataram que o proprietário já sabia dos problemas elétricos do trailer. Algumas pessoas afirmaram ter levado choque ao encostar na estrutura antes da morte de Erick.
Esse ponto é decisivo para o rumo do processo. Conhecimento prévio do risco pesa na avaliação sobre a assunção deliberada do perigo, e é justamente o que a Polícia Civil ainda precisa demonstrar com provas.
A versão do dono do trailer
No dia da morte do menino, Hugo Moreira Rosa afirmou que não viu o momento do acidente e que encontrou Erick já caído no chão. Ele disse ter prestado socorro e negou que o veículo estivesse energizado, alegando que a extensão existia, mas não estava ligada.
“Ninguém sabe o que aconteceu. Eu fui o primeiro a pegar ele, então eu vi ele caído, não tem como eu especificar se ele escorregou, se ele levou um choque. Ninguém tem como saber, só a perícia”, declarou o proprietário à época.
Procurado após a divulgação do laudo, o dono do trailer não foi encontrado em casa e não atendeu às ligações da reportagem da TV Globo. Ele não tem, até o momento, defesa constituída divulgada publicamente.
Como foi o acidente de 24 de julho
Erick jogava bola com amigos na rua quando a bola parou embaixo do trailer estacionado. Ao se abaixar para pegá-la, o menino recebeu a descarga.
O Corpo de Bombeiros prestou os primeiros socorros e levou a vítima ao Hospital Regional do Paranoá. Erick não resistiu e morreu ainda no atendimento. O caso é apurado pela 6ª Delegacia de Polícia, no Paranoá.
O que muda agora
Com o laudo cadavérico e o laudo do local concluídos, o inquérito entra na fase de definição do enquadramento. A Polícia Civil precisa decidir se indicia o proprietário por homicídio culposo ou por conduta dolosa, hipótese mais grave que depende de comprovar que ele aceitou o risco de alguém morrer.
Depois do indiciamento, os autos vão ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, que decide se oferece denúncia à Justiça. Só a partir daí o caso passa a tramitar como ação penal.
Ligações elétricas improvisadas para alimentar trailers, food trucks e barracas de rua são frequentes no DF e escapam de fiscalização regular. Instalações desse tipo exigem aterramento e dispositivo diferencial residual, o chamado DR, que corta a corrente quando detecta fuga de energia.
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