qua, 23 set
Meio Ambiente

Rã-de-vidro nova do Cerrado é descrita no Rio São Bartolomeu, a 38 km de Brasília

A Vitreorana micaelae tem pouco mais de 2 centímetros, canta só em chuva forte e vive na mata de galeria do Rio São Bartolomeu, em Luziânia (GO).

Por Redação Sou Brasília 5 min de leitura
Rã verde translúcida de dois centímetros pousada sobre uma folha larga, com olhos dourados e pele granulada
Foto: Cezar F. Rocha/ZooKeys (CC BY 4.0)
Neste texto4 tópicos
  1. Por que ela se chama rã-de-vidro
  2. Onde ela vive e o que isso tem a ver com o DF
  3. Como ela ficou 13 anos confundida com outra espécie
  4. O que ameaça a espécie

Pesquisadores da PUC de Goiás, da Universidade Federal de Goiás e da Universidade de Brasília descreveram uma nova rã-de-vidro do Cerrado. A Vitreorana micaelae vive em mata de galeria na margem do Rio São Bartolomeu, em Luziânia (GO), a cerca de 38 quilômetros de Brasília.

O trabalho saiu na edição de setembro da revista científica ZooKeys e analisou nove machos adultos coletados no mesmo trecho de mata. "Depois que esses animais foram encontrados, e o canto gravado, a gente partiu para avaliação, a comparação com outros grupos das rãs-de-vidro, porque essas rãs de vidro são, de modo geral, mais restritas à Mata Atlântica e Amazônia", disse à Agência Brasil o professor Reuber Brandão, da UnB, um dos seis autores.

Por que ela se chama rã-de-vidro

O nome popular vem da pele. Nas rãs-de-vidro, a membrana que reveste a barriga é transparente, e dá para ver o fígado, o intestino e o coração por fora. Na Vitreorana micaelae, o estudo registra pontos brancos nessa membrana, uma das características que separam a espécie das parentes.

O bicho é pequeno até para o grupo. A média de comprimento dos machos ficou em 23,2 milímetros, com variação de 21,7 a 26,1. Não tem dentes no céu da boca, o tímpano ocupa cerca de um terço do diâmetro do olho e a pele das costas tem textura granulada.

Onde ela vive e o que isso tem a ver com o DF

O exemplar de referência foi coletado em 9 de dezembro de 2014 pelo biólogo Cezar Filho Rocha, numa mata de galeria às margens de um riacho perto da margem leste do Rio São Bartolomeu, a 826 metros de altitude. As coordenadas publicadas no estudo (16°06.87'S, 47°43.50'W) ficam a 37,9 quilômetros da Praça dos Três Poderes, em linha reta.

O Rio São Bartolomeu não é um rio goiano qualquer. A sub-bacia que leva o nome dele engloba, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica dos Afluentes do Rio Paranaíba no DF, as regiões administrativas de Planaltina, Sobradinho, Sobradinho II, Itapoã, Paranoá, Jardim Botânico e São Sebastião, além de partes de Luziânia, Cidade Ocidental, Valparaíso de Goiás e Cristalina. A rã foi descrita justamente na parte goiana dessa mesma sub-bacia.

Rio São Bartolomeu visto de dentro da mata de galeria, com água barrenta e galhos sobre o curso d'água
A margem do Rio São Bartolomeu em Luziânia, onde os pesquisadores coletaram os nove machos analisados no estudo.Foto: Cezar F. Rocha/ZooKeys (CC BY 4.0)

Os machos cantam a cerca de 2,5 metros acima da água, na vegetação da beira do riacho. Segundo os pesquisadores, isso só acontece em chuva forte, o que ajuda a explicar por que quase ninguém na região conhece o animal.

"Esse bicho canta no alto de árvores em barrancos inclinados na beira do rio, e só quando está chovendo intensamente. Então, mesmo para a gente que está em campo procurando esses animais ativamente, leva tempo até encontrar populações na região", afirmou Brandão.

Como ela ficou 13 anos confundida com outra espécie

Em 2013, um outro grupo de pesquisadores registrou rãs-de-vidro nessa região do Cerrado e as classificou como Vitreorana eurygnatha, espécie já conhecida. A reprodução parecida ajudou no engano: o casal cola os ovos em folhas sobre o riacho, o macho toma conta, e os girinos caem na água e se enterram no sedimento.

Mapa do Cerrado central com o Distrito Federal no centro e dois pontos marcando as localidades da rã em Luziânia
O ponto vermelho marca a localidade-tipo, logo abaixo do limite sul do DF. O preto é o registro de 2013, confundido com outra espécie.Mapa: Vaz-Silva et al./ZooKeys (CC BY 4.0)

A separação veio do canto e do DNA. A espécie nova emite dois tipos de canto, um curto, de 17,1 a 25,1 milésimos de segundo, e um longo, de 45,6 a 115,6. A frequência dominante fica perto de 4.720 hertz. Na comparação genética do fragmento 16S, a distância entre as espécies do gênero variou de 3,5% a 9,6%.

Com ela, o gênero Vitreorana passa de dez para onze espécies. É a segunda do grupo que ocorre apenas no Cerrado, um bioma de vegetação aberta onde esse tipo de rã, típico de floresta, é exceção.

O que ameaça a espécie

O estudo recomenda classificar a Vitreorana micaelae como Dados Insuficientes na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza, porque ninguém sabe ainda o tamanho da população. As ameaças apontadas são o barramento de rios, a conversão de terra para agricultura e a mineração na região.

Um detalhe do próprio estudo mostra o tamanho do risco. Um dos exemplares analisados, o macho de registro CEPB 7712, foi recolhido em 4 de julho de 2005 durante o resgate de fauna feito para encher o reservatório da usina hidrelétrica Corumbá IV, também em Luziânia. A espécie foi para a coleção antes de a ciência saber que ela existia.

FichaDado
Nome científicoVitreorana micaelae
Tamanho (machos)21,7 mm a 26,1 mm
Onde foi descritaLuziânia (GO), margem do Rio São Bartolomeu
Altitude826 metros
Distância de BrasíliaCerca de 38 km em linha reta
Localidades conhecidasDuas, as duas em Luziânia
Status na IUCNDados Insuficientes (recomendado)
PublicaçãoZooKeys 1291, setembro de 2026

O nome homenageia a bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, mulher do pesquisador Wilian Vaz-Silva, da PUC de Goiás, que liderou o grupo.

O Cerrado do Entorno e do DF guarda mais material do que a ciência já catalogou. O herbário do Jardim Botânico de Brasília, que reúne 38.824 plantas do Cerrado, e as nascentes protegidas no Parque das Águas, em Brazlândia, contam a mesma história por outros caminhos.

Brandão adiantou à Agência Brasil que a equipe já localizou uma terceira população da rã no Cerrado, ainda não publicada. Quem quiser acompanhar pode seguir as próximas edições da ZooKeys, que publica os artigos em acesso aberto.

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