Lucineide dos Santos Oliveira — sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), organização central no esquema de fraudes do INSS, e presidente de uma igreja evangélica no Recanto das Emas (DF) — repassou R$ 5,94 milhões ao BK Bank, instituição financeira investigada por lavar recursos do Primeiro Comando da Capital (PCC). A revelação consta no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, lido na última sexta-feira (27/3).
O mesmo documento pediu o indiciamento de Lucineide pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Outras 215 pessoas foram incluídas no pedido de indiciamento.
A teia de empresas de fachada
Segundo a CPMI, o repasse ao BK Bank foi feito por intermédio de uma empresa de fachada chamada Expresso Marketing. O mesmo CNPJ também transferiu R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde — empresa que já havia sido investigada na CPI da Covid-19, em 2021, por suspeitas de irregularidades em contratos com o Ministério da Saúde. A BSF é controlada pelo lobista e empresário Danilo Trento, apontado pela Polícia Federal como um dos articuladores do desvio de recursos previdenciários em conjunto com o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio de Oliveira Filho.
A CPMI concluiu que Lucineide controlava ao menos três empresas sem funcionários registrados — Expresso Serviços de Publicidade e Marketing, Impacto Serviços de Apoio Adm e Solution Serviços de Locação e Apoio, todas sediadas no Recanto das Emas. Juntas, essas empresas receberam R$ 141,8 milhões, sendo R$ 138,9 milhões oriundos da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer) e R$ 2,9 milhões da própria AAB.
Como pessoa física, Lucineide movimentou R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025 — dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer. O dado contrasta de forma flagrante com sua situação declarada: em 2022, ela tinha renda formal de apenas R$ 2 mil mensais e histórico de inscrição no CadÚnico.
Repasses a investigados e patrimônio incompatível
As investigações financeiras apontaram que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, a Pedro Alves Corrêa Neto, servidor identificado como o principal facilitador dos processos das associações dentro da DIRBEN/INSS. Em operação separada, efetuou um único repasse de R$ 600 mil para um posto de combustíveis em Minas Gerais, utilizado segundo os investigadores para branqueamento de capitais.
O relatório aponta ainda que cerca de R$ 700 mil foram enviados ao escritório de Milena Câmara, filha do deputado federal Silas Câmara, entre 2023 e 2024 — período que coincide com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.
Com os recursos desviados, Lucineide adquiriu um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A PF aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para blindar o patrimônio dos líderes do esquema.
Igreja retira fachada após exposição pública
A Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, localizada no Recanto das Emas e presidida por Lucineide, removeu sua placa de identificação dias depois que a ligação entre a religiosa e a fraude do INSS veio a público. No mesmo endereço da igreja, a Receita Federal registra como ativa uma empresa pertencente a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer — levantando suspeitas de empresa fantasma no local.
A AAB e a Conafer compartilham o mesmo endereço comercial no Setor Comercial Sul de Brasília e figuram na lista de Processos Administrativos de Responsabilização (PAR) instaurados pela CGU por descontos ilegais aplicados em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS.
Lucineide não respondeu aos contatos da imprensa até o fechamento desta reportagem.








