Farra do INSS: PF vê lavagem de R$ 304 mi em sobrado no Recanto das Emas

julho 19, 2026
Cédulas de cem reais sobre fundo azul em close

Empresas instaladas na parte de cima de um pequeno sobrado no Recanto das Emas lavaram mais de R$ 304 milhões desviados na fraude dos descontos de aposentados, a chamada farra do INSS, aponta relatório da Polícia Federal revelado pelo Metrópoles no sábado (18).

O dinheiro saiu da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores (Conafer), entidade que, segundo a PF, teria lucrado R$ 708 milhões com os descontos associativos aplicados sem autorização nos benefícios. A investigação estima em R$ 6 bilhões o prejuízo total causado aos aposentados e pensionistas pelo esquema.

Empresas de fachada em salas de 20 m²

Pelo menos dez CNPJs foram registrados no endereço do sobrado, na área residencial do Recanto das Emas. As atividades declaradas variam de comércio varejista e locação de carros a serviços de apoio à agricultura, sem estrutura física compatível com a movimentação milionária.

As empresas estão em nome de Cícero Marcelino Santos e Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, ambos ligados à Conafer, e de Lucineide dos Santos Oliveira, vinculada à Associação de Aposentados do Brasil (AAB), outra entidade investigada. Lucineide também é dona de uma igreja evangélica no mesmo bairro e está entre os alvos citados na apuração sobre donos de igrejas do DF indiciados pela PF.

“O fato de empresas funcionarem em salas modestas de aproximadamente 20 m², muitas vezes parecendo desocupadas, constitui prova robusta de que se tratavam de empresas de fachada para a ocultação da origem ilícita dos fundos”, diz o relatório da PF citado pela reportagem.

Planilhas de propina batem com transferências

Durante as diligências, os investigadores encontraram planilhas com registros de pagamentos de propina atribuídas à Conafer. Os valores anotados nos documentos coincidem com as transferências bancárias analisadas pela equipe, o que reforçou a suspeita de pagamento a servidores do próprio INSS.

Segundo a PF, o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio Ribeiro recebeu ao menos R$ 6,5 milhões em propina. O ex-diretor do instituto André Fidelis teria ficado com cerca de R$ 3,4 milhões.

48 indiciados e caso no STF

O inquérito sobre o núcleo da Conafer foi concluído em 14 de julho com o indiciamento de 48 pessoas. Os principais números da apuração:

  • R$ 304 milhões lavados pelas empresas registradas no sobrado do Recanto das Emas;
  • R$ 708 milhões de lucro estimado da Conafer com os descontos irregulares;
  • R$ 6 bilhões de prejuízo estimado aos beneficiários do INSS;
  • 48 indiciados por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa;
  • ao menos dez CNPJs abertos no mesmo endereço residencial.

O relatório foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, e agora cabe à Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia contra os indiciados. Não há prazo definido para a manifestação.

A fraude dos descontos derrubou a cúpula do INSS em 2025 e segue rendendo desdobramentos. Além do núcleo da Conafer, a PF apura a atuação de entidades menores e de intermediários financeiros, caso da Operação Fugazi, que mirou grupo especializado em cartão consignado. Aposentados que identificaram descontos associativos não autorizados podem pedir o ressarcimento pelo aplicativo ou pela central 135 do INSS.

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