Um incêndio atingiu a Reserva Biológica do Guará nesta quinta-feira (6/8) e mobilizou o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) e a brigada do Instituto Brasília Ambiental (Ibram). O fogo se espalhou pela vegetação seca e chegou perto de áreas ocupadas da região administrativa.
Ainda pela manhã, uma creche vizinha à unidade de conservação precisou ser esvaziada às pressas. Foram retiradas 148 crianças e 39 servidores, levados temporariamente para o Edifício Warlley Covre, segundo o Correio Braziliense. Não houve feridos.
A suspeita de ação humana partiu de quem combateu as chamas. Luiz Antônio, brigadista do Ibram, afirmou ao Correio que a origem intencional é a regra, não a exceção, nas ocorrências que a equipe atende na cidade.
“A maioria dos incêndios é criminal. Queima de lixo é muito frequente”, disse o brigadista.
Segundo ele, parte dos focos tem finalidade específica: limpar a vegetação para abrir caminho a ocupações irregulares dentro ou no entorno de áreas protegidas. O acompanhamento das ocorrências no DF é feito pelo Serviço de Operações de Informação e Prevenção (Soinp).
O que é a reserva atingida
A Reserva Biológica do Guará é uma unidade de conservação urbana, encravada entre áreas residenciais e vias movimentadas da região administrativa. Tem cerca de 220 hectares, o equivalente a mais de 200 campos de futebol, com vegetação típica do Cerrado.
Reserva biológica é a categoria mais restritiva do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nela, o objetivo é a preservação integral: não há visitação aberta ao público, e o uso é limitado a pesquisa científica e atividades de educação ambiental previamente autorizadas. Isso significa que qualquer fogo dentro do perímetro tem origem externa, seja por descarte de lixo, seja por ação deliberada.
A época favorece a propagação. Agosto é o auge do período seco no Distrito Federal, quando a umidade relativa do ar despenca durante a tarde e o material vegetal acumulado no chão fica quebradiço. Nessas condições, um foco pequeno avança rápido e muda de direção com o vento, o que dificulta o combate.
Qual a punição prevista
A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998) trata do tema no artigo 41, que pune quem provoca incêndio em mata ou floresta com reclusão de dois a quatro anos e multa. Quando a conduta é culposa, ou seja, sem intenção de causar o dano, a pena cai para detenção de seis meses a um ano, além da multa.
Há ainda o artigo 38, que trata da destruição de vegetação em área de preservação, e a possibilidade de responsabilização administrativa pelo Ibram, com autuação e multa em valores fixados por hectare atingido. As esferas são independentes: o mesmo fato pode gerar processo criminal, ação civil e multa ambiental.
Quando há indício de fogo posto, a apuração cabe à Polícia Civil, com apoio da perícia. Já a fiscalização ambiental e o levantamento da área queimada ficam com o Ibram, que também avalia o custo da recuperação.
O que fazer ao ver fumaça
A orientação do CBMDF para incêndio em vegetação em área urbana é direta:
- ligar para 193 assim que avistar fumaça, informando ponto de referência e se há casas, escolas ou postos de combustível próximos;
- não tentar apagar o fogo com galhos ou água em pequena quantidade, porque isso espalha brasas;
- afastar-se do sentido do vento e retirar do local pessoas com dificuldade de locomoção, crianças e idosos;
- fechar janelas dos imóveis vizinhos para reduzir a entrada de fumaça;
- não descartar lixo, entulho ou material de poda em terrenos baldios e áreas verdes.
Denúncias sobre queima de lixo e descarte irregular também podem ser registradas na Ouvidoria do GDF, pelo telefone 162, e no portal Participa-DF.
Um problema que se repete
Incêndios em áreas verdes do DF se concentram entre maio e setembro e pressionam a estrutura de combate justamente no período em que as equipes já atendem mais ocorrências. Cada saída consome água, combustível, tempo de guarnição e desgaste de brigadista, e o efeito não termina quando o fogo apaga: a vegetação nativa do Cerrado rebrota, mas fauna de solo, ninhos e mudas jovens levam anos para se recompor quando a queima se repete no mesmo trecho.
No caso desta quinta, o balanço da área atingida e a causa oficial ainda dependem da conclusão dos levantamentos do Ibram e do CBMDF, que não haviam divulgado números finais até a publicação desta reportagem.
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