A arquiteta e urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, morreu nesta terça-feira (25), aos 91 anos. A causa da morte não foi divulgada. A governadora Celina Leão decretou três dias de luto oficial no Distrito Federal, e informações sobre o velório não haviam sido confirmadas até a publicação desta reportagem.
“Maria Elisa Costa é um ícone e um símbolo de Brasília. Deixa um enorme legado para a preservação”, afirmou a governadora ao anunciar o luto.
Nascida no Rio de Janeiro em outubro de 1934, ela se formou em arquitetura em 1958 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, e chegou a Brasília no ano seguinte, quando a cidade ainda era canteiro de obras. Entrou para a divisão de urbanismo da Novacap em 1959 e ficou até 1964.
Uma trajetória colada à preservação da capital
Depois da Novacap, Maria Elisa trabalhou no escritório do arquiteto francês Bernard-Henri Zehrfuss, em Paris, entre 1964 e 1968. De volta ao Brasil, foi sócia de empresas de planejamento urbano no Rio de Janeiro de 1968 a 1982.
O retorno ao debate sobre Brasília veio pelo lado institucional. Ela foi assessora do secretário de Viação e Obras do GDF entre 1986 e 1987, período em que também integrou o Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente. Nos anos seguintes, ocupou:
- a Comissão Especial de Brasília no Iphan, de 1996 a 1998;
- o Conselho Técnico de Preservação de Brasília, de 1999 a 2001;
- a presidência do Iphan, de 2003 a 2004;
- a direção da Associação Casa de Lucio Costa, responsável pelo acervo do pai.
Foi essa sequência que transformou o nome dela em referência obrigatória sempre que uma proposta de obra tocava no conjunto urbanístico tombado. Brasília é patrimônio cultural da humanidade desde 1987, e a proteção, no caso da capital, não recai sobre edifícios isolados: alcança a relação entre as escalas, os gabaritos, os vazios e o traçado original.
O legado que a cidade herda
Maria Elisa costumava separar duas coisas que o debate público mistura com frequência: preservar não é congelar. A defesa que ela fazia era da lógica do plano, não da proibição de qualquer mudança. Essa distinção apareceu em pareceres, conselhos e audiências ao longo de mais de três décadas, e é a herança prática que fica para quem decide o futuro urbano do DF.
Como filha de Lucio Costa, ela também administrou a memória do autor do Plano Piloto, organizando acervo, publicações e a divulgação dos documentos originais do projeto. O trabalho ajudou a fixar o Relatório do Plano Piloto como texto de referência, e não apenas como peça histórica.
A morte ocorre em um momento em que o GDF discute adensamento, novas frentes de ocupação e projetos que esbarram nas regras do tombamento. O debate segue, agora sem a interlocutora que o acompanhou desde o começo.
Brasília tem outros nomes ligados à construção e à preservação do conjunto urbanístico, e a lista de mulheres que participaram diretamente do projeto ainda é pouco conhecida do público. A capital preserva o traçado original em áreas de circulação intensa, como a plataforma da Rodoviária do Plano Piloto, que continua funcionando como o centro geográfico da cidade projetada pelo pai dela.








