Adolescente morre após semana de atendimentos por dor de dente no DF

agosto 20, 2026
Instrumentos odontológicos dispostos em bandeja metálica esterilizada

Uma adolescente de 15 anos morreu em 13 de agosto no Hospital da Criança de Brasília depois de uma sequência de atendimentos que começou com dor de dente, em Sobradinho II. A família registrou ocorrência na 35ª Delegacia de Polícia e cobra apuração de negligência. O relatório do Serviço de Verificação de Óbito aponta infecção generalizada decorrente de endocardite bacteriana de origem odontológica.

Segundo o relato do pai, André Estevam Abreu, ao portal Metrópoles, o caso começou com uma obturação feita em 20 de julho fora da rede pública. Em 29 de julho, a adolescente foi atendida na Unidade Básica de Saúde de Sobradinho II e recebeu prescrição de antibiótico.

A cronologia dos atendimentos

Em 9 de agosto, ela procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sobradinho, onde passou por drenagem de abscesso dentário. Voltou à unidade na noite de 12 de agosto com náuseas, falta de apetite, dores intensas e formigamento. Em 13 de agosto, foi transferida para a UTI pediátrica do Hospital da Criança de Brasília, onde morreu à noite.

A necropsia identificou cerca de 300 mililitros de sangue acumulados dentro do tórax, quadro descrito como hemotórax. Um painel viral respiratório detectou rinovírus e influenza B. Na declaração de óbito, assinada em 17 de agosto por médico legista, o campo da causa da morte traz “óbito a esclarecer por exames complementares”.

“Podia ter sido evitada a morte dela. Podiam ter encaminhado ela logo para o hospital na segunda vez que ela foi à UPA”, disse o pai. “A gente quer justiça para provar que houve negligência médica.”

O que diz o Iges-DF

O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), que administra a UPA de Sobradinho, apresentou a própria versão da assistência prestada. Em nota, o instituto afirma que, no atendimento de 9 de agosto, a responsável informou que a adolescente fazia tratamento odontológico fora da rede pública e foi orientada sobre a necessidade de continuidade com especialista em canal, “serviço não disponibilizado na rede pública”.

Sobre o retorno de 12 de agosto, a nota diz que a paciente chegou com vômitos e dor abdominal e passou por avaliação médica, exames complementares e monitorização. “Diante dos sinais clínicos e das alterações identificadas nos exames, a equipe adotou as medidas assistenciais necessárias”, afirma o texto. Com a evolução do quadro, ela foi levada à Sala de Estabilização e o instituto solicitou à Central de Regulação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) a transferência para UTI pediátrica, concluída em 13 de agosto, por volta das 17h30.

A SES-DF e a Polícia Civil não divulgaram posicionamento sobre o caso até a manhã desta quinta-feira (20).

Por que uma infecção dentária pode ficar grave

A endocardite bacteriana é a infecção do revestimento interno do coração e das válvulas cardíacas. Ela ocorre quando bactérias caem na corrente sanguínea e se alojam nessa estrutura. Procedimentos odontológicos, abscessos e infecções na boca estão entre as portas de entrada descritas na literatura médica, sobretudo quando há foco infeccioso não tratado.

Sinais de alerta que pedem retorno imediato ao serviço de saúde depois de um quadro dentário incluem:

  • febre persistente por mais de 48 horas;
  • inchaço que avança para o rosto, o pescoço ou o assoalho da boca;
  • dificuldade para engolir, respirar ou abrir a boca;
  • falta de ar, palpitação e cansaço fora do comum;
  • vômitos, prostração e queda do estado geral.

O tratamento de canal, indicado quando a polpa do dente está comprometida, não é ofertado na atenção básica da rede pública do DF em todas as unidades, o que empurra parte dos pacientes para o serviço privado ou para o pronto atendimento quando o quadro piora.

O que acontece agora

Com o registro na 35ª DP, cabe à Polícia Civil apurar se houve erro ou omissão na cadeia de atendimentos. A investigação depende dos exames complementares citados na declaração de óbito, dos prontuários das três unidades e do laudo definitivo do Instituto de Medicina Legal. Não há prazo fixado para a conclusão.

Como registrar reclamação sobre atendimento na rede pública

Pacientes e familiares que consideram ter havido falha na assistência podem acionar os canais formais, que geram protocolo e prazo de resposta:

  • Ouvidoria do GDF pelo telefone 162, que direciona a manifestação ao órgão responsável;
  • Ouvidoria da Secretaria de Saúde do DF, para unidades da rede própria;
  • Ouvidoria do Iges-DF, para as UPAs e os hospitais administrados pelo instituto;
  • pedido de cópia do prontuário na unidade onde houve o atendimento, direito do paciente ou do responsável legal;
  • registro de ocorrência na delegacia, quando a família suspeita de crime.

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