O sotaque que Brasília jurava não ter: estudo da UnB mede a fala da segunda geração de brasilienses
Pesquisa do Laboratório de Fonética e Fonologia da UnB (LAFFON) identificou padrões acústicos próprios na fala de brasilienses de segunda geração, como o 's' final sem chiado e o 'r' como aspiração leve.

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Uma pesquisa do Laboratório de Fonética e Fonologia da Universidade de Brasília (LAFFON) encontrou, pela primeira vez com evidência acústica, padrões de pronúncia próprios na fala de brasilienses de segunda geração, pessoas nascidas no Distrito Federal e filhas de pais também nascidos aqui. O estudo derruba a ideia disseminada de que Brasília seria um território linguístico neutro, sem sotaque reconhecível.
Quem fez a pesquisa e como ela foi conduzida
O trabalho foi conduzido por Yasmin de Faria Miziara Jreige, Davi Moreira e Amanda Marques, bolsistas de iniciação científica do LAFFON, sob orientação de pesquisadores do laboratório vinculado à Universidade de Brasília. A equipe analisou a fala de 30 participantes nascidos no DF, todos com pai e mãe também brasilienses, um recorte pensado para isolar o que é de fato produção linguística da segunda geração, sem a influência direta do sotaque de origem dos pais.

Quais padrões de pronúncia o estudo encontrou
A análise acústica identificou dois traços que se repetem entre os participantes. O primeiro é a pronúncia do 's' final de sílaba sem o chiado típico de outras variantes do português brasileiro: o som sai mais seco, sem a palatalização comum em falares do Rio de Janeiro ou de parte do Nordeste. O segundo é o comportamento do 'r' final de palavra, que aparece como uma aspiração leve, bem diferente do erre retroflexo, aquele som arrastado e grave característico do interior de Goiás e de Minas Gerais, regiões que forneceram boa parte da população que colonizou o Distrito Federal nas décadas seguintes à inauguração da capital.
Por que a ideia de 'Brasília sem sotaque' persiste
Segundo os pesquisadores do LAFFON, a convicção de que a cidade não tem sotaque próprio vem do fato de boa parte da população adulta de Brasília ter nascido em outros estados e carregar, na fala, a marca de origem. Como a capital federal reúne migrantes de todas as regiões do país desde sua fundação, em 1960, o ouvido comum associa a ausência de um sotaque único e dominante à ausência de qualquer sotaque.
O estudo do LAFFON argumenta o contrário: a segunda geração, que cresceu ouvindo essa mistura de sotaques dentro de casa e na rua, já consolidou um jeito de falar próprio, diferente de qualquer uma das variantes de origem dos pais. Na avaliação da equipe, isso indica que o processo de formação de um sotaque brasiliense está em curso e já é mensurável em laboratório.
O que vem depois da pesquisa
- Ampliação da amostra para além dos 30 participantes já analisados
- Comparação com falantes de terceira geração, netos de brasilienses
- Mapeamento de outros traços sonoros além do 's' final e do 'r' final
O LAFFON integra a Faculdade de Comunicação e o Instituto de Letras da UnB e mantém linhas de pesquisa voltadas à variação linguística no Distrito Federal. A expectativa da equipe é publicar os resultados completos em periódico científico de linguística, com a metodologia detalhada da coleta e da análise acústica das gravações.




