Greve dos caminhoneiros é confirmada após reajuste do diesel pela Petrobra

março 20, 2026

Presidente da Abrava, Wallace Landim, o Chorão, classifica a paralisação como questão de sobrevivência e compara o cenário atual à greve histórica de 2018; crise no Estreito de Ormuz é apontada como fator global da alta


A categoria dos caminhoneiros autônomos confirmou uma paralisação nacional com início na quinta-feira (19), em resposta ao reajuste no preço do diesel anunciado pela Petrobras na semana anterior, na sexta-feira (13). O anúncio da greve foi feito por Wallace Landim, o Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) — uma das principais entidades representativas do setor no país.

Na avaliação de Landim, a paralisação não carrega qualquer viés político. O tom é de desespero econômico. “O caminhoneiro hoje trabalha de graça; o dinheiro não está pagando nem o custo operacional”, afirmou o dirigente ao confirmar a mobilização da categoria.

“É o mesmo filme de 2018”

Para Landim, o cenário atual apresenta similaridades inquietantes com a greve de 2018, que paralisou o país por dez dias, gerou escassez de combustíveis e alimentos em diversas regiões e forçou o então governo a ceder a uma série de demandas da categoria. “É o mesmo peso, a mesma dor de 2018. É o mesmo filme. Já faz oito anos”, declarou.

Entre as reivindicações estruturais da categoria figuram a regulamentação de uma planilha de custo mínimo para o frete e a isenção de cobrança pelo caminhão vazio — medidas que os caminhoneiros consideram essenciais para garantir a viabilidade econômica da atividade.

A tentativa frustrada do governo federal

Horas antes de a Petrobras confirmar o reajuste, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia anunciado a suspensão da cobrança de PIS e Cofins sobre o diesel e a criação de um programa de subvenção ao combustível para tentar conter a pressão sobre os preços. A iniciativa, no entanto, foi rapidamente ultrapassada pelo movimento da estatal — e, na avaliação de Landim, mostrou-se insuficiente para reverter a decisão de paralisar.

A raiz do problema: Oriente Médio e Estreito de Ormuz

Por trás da alta do diesel no Brasil há um fator geopolítico de alcance global. O acirramento do conflito no Oriente Médio tem comprometido o tráfego de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, corredor marítimo entre o Irã e Omã que responde pela passagem de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. A instabilidade na rota eleva os custos de transporte e de seguro das cargas, pressionando os preços do barril nos mercados internacionais — e, em cadeia, o valor final do combustível nos postos brasileiros.

O que está em jogo

Com o Brasil sendo um país continental em que mais de 60% das cargas são transportadas por rodovias, uma paralisação prolongada dos caminhoneiros tem potencial de provocar efeitos imediatos no abastecimento de alimentos, medicamentos e insumos industriais — além de impactar diretamente os preços ao consumidor final. A memória de 2018 segue viva tanto na categoria quanto no governo, que sabe que o prazo para encontrar uma saída negociada é curto.