O Distrito Federal registrou oficialmente 14 desastres climáticos na última década, segundo o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026, produzido pelo Centro Brasil no Clima (CBC) em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS). O número é baixo na comparação nacional, mas concentra episódios com efeito direto sobre a população.
Os registros reúnem cinco tipos de ocorrência: incêndios florestais, seca, erosão, alagamento e chuva intensa. A distribuição ao longo do período mostra que o problema mudou de natureza. Nos anos iniciais, o que mais aparecia era água em excesso ou fora de lugar. Nos anos recentes, o que aparece é fogo.
Fogo dominou os registros de 2024
O ano de 2021 concentrou o maior número de notificações do período analisado, com sete ocorrências, ligadas sobretudo a erosão e alagamento. Três anos depois, em 2024, foram quatro registros: três incêndios florestais e uma chuva intensa. Naquele ano, os incêndios responderam por 75% dos desastres oficialmente contabilizados no DF, e o episódio de chuva forte deixou 80 pessoas desalojadas ou desabrigadas.
A inversão importa porque muda o tipo de resposta exigida do poder público. Alagamento cobra obra de drenagem e manutenção de bocas de lobo. Incêndio florestal cobra brigada, aceiro, monitoramento por satélite e capacidade de mobilização rápida na estiagem, período em que o Distrito Federal passa meses seguidos sem chuva e com umidade relativa do ar em níveis de deserto.
Falta de plano é o gargalo apontado pelo estudo
O anuário situa o caso do DF em um problema nacional de preparação. Segundo Guilherme Bastos, professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura, 87% dos municípios brasileiros não têm plano municipal de redução de riscos, instrumento que define o que fazer antes do evento extremo, e não só depois dele.
Eu não sei dizer exatamente o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer.
A frase é de Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima, citada no levantamento. O sentido é operacional: a incerteza está no formato e na data do próximo evento extremo, não na ocorrência dele.
O tamanho do problema no país aparece em outro conjunto de dados. Segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil em fevereiro, eventos climáticos extremos atingiram diretamente 336.656 pessoas no Brasil em 2025 e produziram perdas econômicas da ordem de R$ 3,9 bilhões. Entre 1991 e 2024, ocorrências ligadas a excesso ou falta de chuva afetaram 91,5% dos municípios brasileiros. Nesse retrato, o Distrito Federal é uma exceção estatística, com poucos registros formais, e não um território fora de risco.
O documento também traz a avaliação de Eduardo Assad, professor da FGV e especialista nos efeitos do El Niño no Centro-Oeste, com atenção às ondas de calor, fenômeno que combina temperatura alta prolongada e ar seco, a assinatura climática do inverno do Planalto Central.
O que o GDF diz que está fazendo
Na resposta ao levantamento, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que elabora o Plano de Preparação do DF para Enfrentamento dos Impactos do El Niño, com ações divididas em três frentes:
- Preparação: organização prévia da rede de saúde para períodos de calor extremo e baixa umidade;
- Contingência: definição do que é acionado quando o evento ocorre;
- Resposta: atendimento à população afetada durante e depois da ocorrência.
A pasta afirma que já mantém ações permanentes, entre elas a comunicação de risco aos serviços de saúde e a divulgação de alertas sobre calor extremo e umidade baixa. Esses avisos são a face mais visível do tema para o morador do DF: nesta segunda-feira (10), a capital operava sob alerta laranja do Inmet, com umidade relativa podendo cair a 12%.
O contraste entre os 14 registros oficiais e a rotina de alertas expõe o limite do próprio indicador. Um desastre só entra na estatística quando é formalmente reconhecido, com decreto ou registro no sistema nacional. Dias seguidos de umidade em 12%, fumaça de queimada e internação por problema respiratório não geram, isoladamente, um registro de desastre, mesmo produzindo efeito sobre a saúde da população.
Os dados foram divulgados pelo Jornal de Brasília nesta segunda-feira (10), com base no anuário do CBC e do iCS. A próxima medida esperada do GDF é a publicação do plano de enfrentamento em elaboração pela Secretaria de Saúde.
Perguntas frequentes
Quantos desastres climáticos o DF registrou na última década?
Foram 14 registros oficiais, segundo o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026, do Centro Brasil no Clima com o Instituto Clima e Sociedade.
Qual foi o ano com mais ocorrências?
2021, com sete notificações, ligadas principalmente a erosão e alagamento.
O que predominou em 2024?
Incêndios florestais, que responderam por 75% dos desastres registrados no ano. O episódio de chuva intensa de 2024 deixou 80 pessoas desalojadas ou desabrigadas.








