A proporção de famílias brasileiras com dívidas a vencer chegou a 82% em julho de 2026 e atingiu o maior patamar da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O avanço aparece mesmo com a inadimplência em queda, o que indica que o problema não está na dívida vencida, e sim no volume de compromissos assumidos e no peso deles dentro do orçamento mensal.
Os números de julho
- Famílias endividadas: 82%, recorde da série da Peic.
- Famílias com contas em atraso: 29,8%, em queda no mês.
- Comprometimento médio da renda com dívidas: 29,5%.
- Consumidores que destinam mais da metade da renda ao pagamento de dívidas: 19%, o maior nível desde março.
- Endividamento entre quem recebe até três salários mínimos: 84,9%, também em nível recorde.
A Peic mede a proporção de famílias com contas a vencer, e não apenas as que já deixaram de pagar. Entram no cálculo cartão de crédito, carnê de loja, financiamento de carro e de casa, crédito consignado, cheque especial e crédito pessoal.
A conta que fica com quem ganha menos
O recorte por renda é o dado mais duro do levantamento. Entre os consumidores que recebem até três salários mínimos, o endividamento ficou em 84,9%, quase três pontos percentuais acima da média nacional.
É a faixa em que o cartão de crédito e o carnê pesam mais e em que a margem para renegociar é menor. O resultado aparece no indicador de comprometimento: quase um em cada cinco consumidores entrega mais da metade do que ganha ao pagamento de dívidas.
A inadimplência em queda com o endividamento em alta descreve um consumidor que está conseguindo pagar, mas gasta uma fatia maior da renda para isso. É um equilíbrio que depende de emprego e de juros estáveis.
Por que o número subiu mesmo com o Desenrola
O recorde foi registrado no mesmo período em que o programa federal de renegociação de dívidas segue em operação. A renegociação retira o consumidor da inadimplência, mas ele continua endividado, porque o saldo é reparcelado em prestações novas.
É por isso que os dois indicadores da Peic podem andar em direções opostas. O consumidor que troca uma dívida vencida por um acordo parcelado sai da estatística de atraso e permanece na de endividamento, muitas vezes com prazo mais longo.
O custo do crédito é o outro componente. Com a taxa básica de juros em 14% ao ano, as linhas de crédito ao consumidor seguem caras, e o rotativo do cartão continua entre as modalidades de maior taxa do mercado.
O cartão de crédito segue no centro
O cartão de crédito é, mês após mês, o tipo de dívida mais citado pelas famílias na Peic, à frente de carnês, financiamento de carro, crédito pessoal e crédito consignado. A concentração explica por que o indicador de comprometimento da renda reage rápido a qualquer aperto no orçamento.
A conta piora quando a fatura não é paga integralmente. O saldo remanescente migra para o rotativo, cuja taxa é limitada por lei ao dobro do valor original da dívida, teto alto o suficiente para transformar um atraso pontual em compromisso de vários meses.
O parcelamento sem juros, prática consolidada no varejo brasileiro, tem efeito parecido sobre o indicador. Ele não encarece a compra, mas ocupa a renda futura, e é essa ocupação antecipada que a Peic captura ao medir famílias com contas a vencer.
O que fazer para não entrar na estatística
- Listar todas as dívidas com valor, taxa de juros e prazo antes de negociar qualquer uma.
- Priorizar a quitação das linhas mais caras, em geral rotativo do cartão e cheque especial.
- Evitar trocar dívida cara por dívida longa sem comparar o custo total da operação.
- Consultar gratuitamente a situação no Registrato, do Banco Central, e nos birôs de crédito.
- Procurar o Procon-DF em caso de cobrança indevida ou de acordo descumprido pela empresa.
Como a pesquisa é feita
A Peic é apurada mensalmente pela CNC em todas as capitais e no Distrito Federal, com amostra de consumidores de diferentes faixas de renda. A confederação divulga os resultados nacionais e o comparativo com o mesmo mês do ano anterior.
O próximo levantamento, referente a agosto, mostrará se o patamar de 82% se sustenta. A leitura seguinte tende a captar o efeito do calendário de compras do segundo semestre, quando o comércio concentra as datas de maior movimento.
Leia também: o resultado da Peic em junho de 2026.
Perguntas frequentes
Qual foi o endividamento das famílias em julho de 2026?
A proporção de famílias com dívidas a vencer chegou a 82%, o maior patamar da série histórica da Peic, da CNC.
Qual a diferença entre endividamento e inadimplência?
Endividamento é ter contas a vencer. Inadimplência é ter contas vencidas e não pagas. Em julho, o endividamento bateu recorde e a inadimplência caiu para 29,8%.
Quanto da renda das famílias vai para dívidas?
O comprometimento médio foi de 29,5% da renda, e 19% dos consumidores destinam mais da metade do que ganham ao pagamento de dívidas.
Quem está mais endividado?
Consumidores com renda de até três salários mínimos, faixa em que o endividamento chegou a 84,9%, acima da média nacional.








