A morte da soldado da Polícia Militar de São Paulo Gisele Alves Santana, de 32 anos, baleada dentro do apartamento onde vivia com o marido no bairro do Brás, no centro de São Paulo, em 18 de fevereiro, segue cercada de contradições. Áudios das ligações feitas pelo marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, para o 190 e o 193 chamaram a atenção de investigadores pela diferença de tom adotada nas duas chamadas.
Ligação para a PM: Calmo e Protocolar
Nos minutos seguintes ao disparo, o tenente-coronel acionou a Polícia Militar pelo número 190. Nos áudios obtidos pela imprensa, o oficial se identifica logo de início como integrante da corporação e comunica à atendente que a esposa havia se matado com um tiro na cabeça. A conversa transcorre em tom controlado, com o militar respondendo às perguntas, confirmando o endereço e informando o registro funcional da vítima.
A sequência, porém, apresenta uma inconsistência: quando a atendente pergunta sobre o estado da mulher, o coronel indica que ela ainda estava viva e em estado grave, pedindo que o resgate fosse enviado com urgência — apesar de ter afirmado, momentos antes, que ela havia se matado.
Tom Diferente ao Falar com os Bombeiros
Já na ligação ao 193, realizada logo após o contato com a PM, o comportamento vocal do oficial é visivelmente diferente. Enquanto na chamada anterior a fala era objetiva e contida, no contato com os bombeiros o coronel demonstra maior tensão, com pausas e sinais claros de agitação ao descrever a situação da esposa e cobrar rapidez no socorro.
A mudança de entonação entre as duas ligações passou a integrar o conjunto de elementos analisados pelos investigadores na tentativa de reconstruir o que realmente aconteceu dentro do apartamento naquela manhã.
Quase 30 Minutos entre o Disparo e o Pedido de Socorro
Outro ponto que chama a atenção é o intervalo de tempo entre o tiro e o acionamento das autoridades. Registros da ocorrência indicam que a ligação ao 190 foi feita entre 7h57 e 8h01. Uma vizinha do casal relatou à polícia ter sido acordada por seus cachorros às 7h28, atribuindo a reação dos animais a um forte estrondo — provavelmente o disparo. Se os horários forem confirmados, o oficial esperou cerca de 29 minutos antes de pedir socorro.
Contradições que Alimentam as Suspeitas
Além do intervalo de tempo e da diferença de tom nas ligações, investigadores apontam outras inconsistências no caso. Nenhuma cápsula de munição foi encontrada no interior do apartamento. A arma localizada na mão da vítima pertencia ao próprio tenente-coronel. Depoimentos colhidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM revelam divergências entre o relato do militar e o que outras testemunhas descreveram.
O caso, inicialmente registrado como suicídio, foi reclassificado como morte suspeita.
Exumação e Investigação em Andamento
Diante das dúvidas sobre a dinâmica do óbito, a Justiça autorizou a exumação do corpo de Gisele Alves Santana, medida considerada essencial para determinar se o ferimento é compatível com suicídio ou se aponta para outra causa.
O atestado de óbito indica que a soldado morreu às 12h04, após ser transportada em estado gravíssimo pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, na zona oeste da capital paulista. A causa registrada foi traumatismo cranioencefálico grave por ferimento de arma de fogo.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto solicitou afastamento das funções e consta como “parte” na investigação. O caso segue sendo apurado pela Polícia Civil, com acompanhamento da Corregedoria da PM.








