O sargento da reserva da Polícia Militar de Goiás apontado como autor dos disparos que mataram quatro homens em Formosa, no Entorno do Distrito Federal, divulgou um vídeo em que afirma ter revidado a um tiro partido de dentro da caminhonete das vítimas. A gravação circulou na quinta-feira (13), dois dias depois do crime.
Matusalém Silvério da Silva, o filho dele e um terceiro homem descrito pela família como irmão de consideração são investigados pela Polícia Civil de Goiás (PCGO). Os três se apresentaram à delegacia na madrugada seguinte ao crime, prestaram depoimento e foram liberados.
Ao Correio Braziliense, o ex-policial deu a sua versão da sequência dos fatos. “Quando o Maurício chegou em casa, que entrou, o Rodrigo chegou e tentou entrar e não conseguiu. O carro chegou atrás. De dentro da caminhonete, já saiu um disparo. Eu revidei”, disse.
Segundo o relato dele, o filho havia telefonado avisando que integrantes de uma facção de São Paulo perseguiam Rodrigo, o irmão de consideração. A caminhonete teria chegado logo depois à casa da família.
O que as imagens mostram
A cena foi registrada por câmeras de segurança. Pelas imagens descritas na reportagem do Correio Braziliense, passaram-se cerca de onze segundos entre a chegada de uma caminhonete Amarok cinza à residência e os aproximadamente 30 disparos que mataram os quatro ocupantes. Duas das vítimas morreram dentro do veículo.
O crime ocorreu na terça-feira (11), por volta das 18h, na Rua 3, no Setor Parque Lago, em Formosa. A delegada Luana Alves de Souza afirmou que três pessoas atiraram contra os quatro homens.
As vítimas foram identificadas como Luiz Antônio Rodrigues, conhecido como Nego, e o neto dele, Gustavo Fernandes Graças, ambos de São João da Aliança (GO), além de Gustavo Aurélio e André Ferreira, o Tarobá, os dois de São Paulo.
A dívida de R$ 250 mil
A linha central da investigação é a cobrança de uma dívida. Segundo a PCGO, o grupo foi até a casa do ex-policial para cobrar um valor superior a R$ 250 mil, ligado à negociação de um caminhão do tipo prancha. A dívida é atribuída pela apuração ao filho do sargento da reserva.
É nesse ponto que as versões se separam. O ex-policial sustenta que o primeiro disparo partiu da caminhonete e que ele revidou. A investigação ainda não confirmou nem descartou essa sequência, e o volume de tiros registrado pelas câmeras, cerca de 30 em onze segundos, é um dos elementos que a perícia terá de explicar.
Por que os três foram liberados
A liberação dos investigados poucas horas depois do depoimento segue a regra processual. O delegado José Antônio Sena, responsável pelo caso, afirmou ao Metrópoles que os três foram liberados porque não havia mandado de prisão em aberto contra eles.
Na prática, isso significa o seguinte:
- Não houve flagrante: os investigados não foram presos no local e se apresentaram à delegacia horas depois, por conta própria. O flagrante tem prazo e condições específicas no Código de Processo Penal.
- Não houve pedido de preventiva deferido: a prisão preventiva depende de representação da autoridade policial ou de pedido do Ministério Público, e de decisão judicial que reconheça risco à ordem pública ou à instrução do processo.
- Apresentação espontânea pesa a favor: comparecer à delegacia é elemento usado pela defesa para afastar o argumento de que o investigado pretende se furtar à aplicação da lei.
- A situação pode mudar: com laudo pericial e novos depoimentos, a PCGO pode representar pela prisão a qualquer momento do inquérito.
O que a perícia precisa esclarecer
O laudo balístico é o documento que deve organizar a disputa entre as versões. Ele indica de onde partiu cada disparo, a distância dos tiros, a trajetória dos projéteis e quais armas foram usadas. Aplicado ao caso, o exame deve responder se houve tiro partindo da caminhonete, como afirma o ex-policial, e se as vítimas estavam armadas.
O exame de local e os laudos do Instituto Médico Legal completam o conjunto. A posição dos corpos, a quantidade e a localização dos ferimentos e a distribuição das cápsulas no chão ajudam a reconstruir se houve troca de tiros ou execução.
Até esta sexta-feira (14), os laudos seguiam pendentes e ninguém havia sido preso. A PCGO não divulgou prazo para a conclusão do inquérito.
O caso interessa ao DF
Formosa fica a cerca de 80 quilômetros de Brasília e integra a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride-DF). A cidade tem fluxo diário de moradores que trabalham, estudam e usam serviços de saúde na capital, e a segurança pública ali é acompanhada pelas forças do DF em ações integradas.
O SouBrasília acompanha o caso desde o dia seguinte ao crime. Leia aqui a primeira reportagem sobre a chacina que deixou quatro mortos em Formosa.
Informações que ajudem na investigação podem ser levadas à Polícia Civil de Goiás, responsável pelo inquérito.








