As unidades especializadas das polícias civis registraram 782.474 atendimentos a mulheres em situação de violência em 2025 no país. O número consta do 10º Diagnóstico Nacional das Unidades Especializadas no Atendimento à Mulher, divulgado em 7 de agosto pelo Ministério das Mulheres e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, na semana em que a Lei Maria da Penha completou 20 anos.
O levantamento reúne os dados informados pelas próprias unidades e serve de retrato da capacidade instalada da rede especializada. Foram identificadas 585 unidades em funcionamento no Brasil, das quais 530 responderam ao questionário, o equivalente a 90,6% do total.
Os números do atendimento em 2025
Além do total de atendimentos, o diagnóstico consolidou os desdobramentos formais dos casos que chegaram às delegacias especializadas:
- 608.152 boletins de ocorrência registrados
- 329.451 vítimas atendidas
- 323.196 inquéritos instaurados
- 302.626 medidas protetivas de urgência solicitadas
- 53.517 prisões em flagrante de agressores
- 2.539 armas de fogo apreendidas em casos de violência contra a mulher
A diferença entre o número de atendimentos (782,4 mil) e o de vítimas atendidas (329,4 mil) mostra um traço conhecido de quem trabalha na ponta: a mesma mulher costuma voltar mais de uma vez à unidade, seja para acompanhar o inquérito, seja porque a violência se repete. Em média, foram 2,4 atendimentos por vítima ao longo do ano.
Como está estruturada a rede
Das 585 unidades mapeadas, 495 são delegacias especializadas. Desse conjunto, 282 são Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) exclusivas e 213 funcionam em formato misto, dividindo estrutura com outros tipos de atendimento.
A rede conta com cerca de 6,2 mil profissionais em atuação, crescimento de 19,8% em dois anos. O dado que mais chama atenção, porém, é o do horário: 80% das unidades não funcionam 24 horas por dia.
Esse é o ponto de estrangulamento apontado pelo diagnóstico. Violência doméstica se concentra em madrugadas e fins de semana, exatamente quando a maior parte das delegacias especializadas está fechada e o atendimento é absorvido por delegacias comuns, sem equipe treinada para o tipo de ocorrência.
O crescimento de quase 20% no efetivo em dois anos aparece no diagnóstico como resposta à demanda, e não como folga de estrutura. Com 585 unidades para 5.570 municípios, a maior parte das cidades brasileiras não tem delegacia especializada e depende do atendimento em unidade comum ou do deslocamento até o município-polo mais próximo. O documento trata a interiorização da rede e a ampliação do horário como as duas frentes de maior impacto imediato.
O que isso significa para quem mora no DF
O diagnóstico não divulga recorte por estado nem por região, o que impede comparar diretamente o desempenho do Distrito Federal com o de outras unidades da federação. Ainda assim, o retrato nacional ajuda a entender o caminho que uma ocorrência percorre aqui.
No DF, a mulher em situação de violência pode acionar o 190 em caso de emergência, procurar uma DEAM ou registrar ocorrência em qualquer delegacia da Polícia Civil. O pedido de medida protetiva de urgência pode ser feito na própria delegacia, sem necessidade de advogado, e deve ser apreciado pela Justiça em até 48 horas. A Central de Atendimento à Mulher, o 180, funciona 24 horas e é gratuita, inclusive para denúncia anônima.
A rede de prevenção no Distrito Federal também trabalha dentro das escolas. As inscrições do programa que leva palestras sobre a Lei Maria da Penha à rede pública estão abertas, como o SouBrasília detalhou nesta semana.
20 anos da Lei Maria da Penha
A Lei 11.340 foi sancionada em 7 de agosto de 2006 e criou o conjunto de instrumentos que sustenta o atendimento de hoje: medidas protetivas de urgência, juizados especializados, afastamento do agressor do lar e proibição de penas pecuniárias, como o pagamento de cestas básicas, para crimes de violência doméstica.
Os dados de 2025 mostram que a lei virou rotina de trabalho policial em escala: são mais de 2,1 mil atendimentos por dia, em média, nas unidades especializadas do país. O diagnóstico indica que a próxima etapa está menos na criação de novas delegacias e mais na ampliação do horário das que já existem.
Onde buscar ajuda
- 190: Polícia Militar, para emergência em curso.
- 180: Central de Atendimento à Mulher, 24 horas, gratuita e anônima.
- DEAMs e delegacias da Polícia Civil: registro de ocorrência e pedido de medida protetiva.
- Defensoria Pública: acompanhamento jurídico gratuito.








