A defesa da técnica de enfermagem presa em flagrante ao tentar retirar um recém-nascido do Hospital Regional de Santa Maria, no Distrito Federal, apresentou um argumento de ordem psicológica para justificar a conduta da profissional. Segundo os advogados, Eliane Borges Tavares Dias Vieira, de 44 anos, ainda carrega as marcas emocionais da morte do filho, ocorrida no ano passado.
Na peça apresentada pela defesa, consta que a mulher teria passado por uma situação de extremo sofrimento após o falecimento de Gabriel Tavares Bittencourt, de 24 anos, em junho de 2025. O jovem, que trabalhava como guia turístico no Chile, teve uma convulsão seguida de parada cardiorrespiratória. Após o episódio, Eliane teria se afastado do trabalho por meses, com apoio psiquiátrico e medicação contínua, retornando às atividades apenas em janeiro deste ano.
A prisão
O caso aconteceu no último sábado, 28 de março. Uma vigilante em seu posto percebeu a técnica saindo do setor obstétrico com comportamento fora do padrão. Ao questionar para onde ela ia, recebeu silêncio como resposta — Eliane simplesmente continuou andando. Só depois que uma segunda segurança se aproximou é que a abordagem foi concluída.
Confrontada sobre o que carregava nos braços, a técnica revelou ser um bebê. A reação chamou atenção: ela sorriu e disse que a situação era um “teste” para avaliar a eficiência da segurança hospitalar — e chegou a elogiar as vigilantes pela abordagem. Depois, já abalada, chorou e pediu desculpas, mencionando problemas pessoais.
A versão de Eliane
Ouvida na 20ª Delegacia de Polícia (Gama), a técnica negou qualquer intenção de sequestrar a criança. Ela disse que, durante o plantão de 12 horas, prestava assistência a um bebê com hipoglicemia logo após uma cesariana — enquanto a mãe ainda se recuperava da anestesia na sala de pós-operatório.
Segundo ela, em tom de brincadeira com uma colega, teria dito algo como “será que os seguranças reclamam se eu sair com o bebê?” — e que saiu apenas alguns metros pela porta do setor, sem nenhuma intenção de deixar o hospital.
A chefia da técnica contradisse a versão: qualquer deslocamento de recém-nascido dentro da unidade exige autorização expressa, acompanhamento de enfermeiro e médico pediatra, além de toda uma estrutura de suporte clínico. Nada disso foi acionado.
Indiciada e com restrições
Com base nas evidências colhidas, a Polícia Civil do Distrito Federal indiciou Eliane por subtração de incapaz. Na audiência de custódia realizada no domingo, 29 de março, a Justiça concedeu liberdade provisória, mas com uma série de restrições.
A profissional está proibida de acessar qualquer unidade neonatal, maternidade, berçário ou centro obstétrico — em hospitais públicos ou privados — enquanto o processo estiver em andamento. Também não pode chegar a menos de 300 metros do Hospital de Santa Maria, nem manter contato com a mãe do bebê, os profissionais de saúde ou as vigilantes envolvidas no caso.
O caso continua sendo investigado pela 33ª Delegacia de Polícia (Santa Maria).
O que diz o Iges-DF
O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF, responsável pela administração do hospital, confirmou o ocorrido e afirmou que a profissional foi afastada imediatamente. A instituição ressaltou que seus protocolos de segurança nas maternidades são rigorosos e que não há tolerância para condutas que coloquem pacientes em risco. O caso está sendo apurado administrativamente em paralelo às investigações policiais.








