O deputado federal Rafael Prudente (MDB) gravou vídeo nas redes sociais cobrando explicações sobre o acordo de recuperação financeira do BRB. A peça aparece embalada como defesa do erário e do servidor público. Lida com atenção, revela movimento de outra natureza. Um quadro do MDB-DF que sustentou a chapa em que Celina Leão chegou à vice-governança aparece agora como cobrador severo da governadora que herdou o passivo do grupo. A guinada é mais relevante que a planilha exibida em vídeo.
A coerência política costuma valer mais que o discurso técnico. E é exatamente a coerência que falta no movimento.
A virada que merece explicação
Quem acompanha o Distrito Federal sabe que a chapa governista de 2022 reuniu MDB e PP em torno do então governador Ibaneis Rocha e da então vice Celina. Prudente é do grupo do ex-governador e atuou como aliado institucional da composição que entregou o Buriti ao bloco. A chegada de Celina à cadeira principal seguiu a lógica acordada pelo próprio grupo do qual o deputado faz parte.
Não houve afastamento formal, não houve dissidência anunciada, não houve declaração de oposição. Houve, sim, a publicação de um vídeo que coloca a governadora no banco dos réus de uma operação que ela não construiu. O tom do parlamentar é de quem nunca apertou a mão de aliado para chegar a lugar nenhum.
A pergunta legítima que sobra é simples. Quando foi que o aliado virou cobrador?
A planilha que falta o passado
A conta apresentada por Prudente segue formato fácil de reproduzir. O BRB gera, segundo ele, cerca de cinquenta milhões de reais por ano em lucro para o GDF. A proposta de recuperação chega a seis bilhões de reais ao longo de quinze anos. Com a incidência dos juros, defende o deputado, o valor passa de dezessete bilhões. A pergunta retórica encerra a peça: quem vai pagar essa conta?
A construção retórica é eficiente. A construção contábil ignora variáveis decisivas: o valor patrimonial do banco, a função estratégica de uma instituição financeira pública para o Distrito Federal, o custo de oportunidade de uma eventual quebra, o efeito sobre a folha do servidor, sobre o crédito subsidiado em programas sociais, sobre o financiamento de obras locais.
Falta, sobretudo, a primeira linha da planilha: a origem do problema. As operações que conduziram o BRB à situação atual, incluindo a exposição contestada ao Banco Master, foram montadas durante o governo do antecessor de Celina. Os indicados na presidência da instituição naquele período respondiam ao palácio. O palácio era do mesmo grupo do qual Prudente integra.
O nome de Ibaneis Rocha é o que não aparece no vídeo do parlamentar. Por opção.
O que Celina fez
A governadora ficou com o passivo no colo e fez a parte que cabia ao palácio. Operou a articulação com o STF, conduziu a negociação que culminou na homologação do acordo de recuperação, manteve a folha do servidor em dia ao longo da crise, evitou o corte abrupto de serviços e preservou a continuidade institucional do banco. Não escolheu o caminho fácil do confronto político com o grupo que a indicou para a vice. Optou por entregar resultado.
Em entrevista a portais locais ao longo dos últimos meses, aliados da governadora descreveram o estilo da gestão como pragmático. A entrega do acordo, no momento em que ele se tornou viável, mostrou que o estilo se traduziu em ação concreta. Não é trivial transformar herança problemática em saída negociada.
O cálculo eleitoral
O movimento de Prudente cabe melhor em outra leitura. O calendário de 2026 começa a se desenhar. O grupo do ex-governador articula presença pública crescente. O parlamentar busca espaço na disputa por narrativa. A oposição local ao palácio se reorganiza. Em vez de ocupar a tribuna para defender a recuperação de um banco distrital que ajudou a sustentar enquanto a operação do passivo se desenrolava, o deputado escolhe a câmera de celular e o tom de palanque.
O portal Vero Notícias registrou a crise no MDB-DF que respinga em apadrinhados do parlamentar em diferentes pastas. O Misto Brasil documentou a fala pública de Prudente contra Celina no acordo do BRB. O portal Tudo Ok Notícias trouxe que o deputado tem defendido intervenção e privatização do banco. O encadeamento das peças não é coincidência editorial. Compõe agenda em construção.
A leitura honesta
A defesa do erário é tema sério. A defesa do servidor é tema sério. O acordo do BRB merece debate público, escrutínio dos parlamentares e transparência da gestão. Tudo isso cabe. O que não cabe é o aliado que dividiu a chapa do governador reaparecer com voz institucional para cobrar a sucessora pela operação que o grupo dele montou.
Celina Leão entregou o acordo. Rafael Prudente entregou um vídeo. Entre as duas entregas, a diferença diz tudo sobre quem está, hoje, comprometido com a solução do problema. E quem está olhando para 2026 antes de olhar para a realidade do banco.
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