Com 11 meses na função e posicionada num posto estratégico do setor obstétrico do Hospital Regional de Santa Maria, no DF, a vigilante Késia Florência Verneque, de 47 anos, impediu no dia 28 de março o que poderia ter sido o sequestro de um recém-nascido. Ela notou a movimentação atípica de uma funcionária do hospital que saía do centro obstétrico carregando um volume coberto por uma manta — e não hesitou em intervir.
Em entrevista nesta quarta-feira (8/4), Késia relatou que a suspeita surgiu de um detalhe aparentemente simples: a mulher estava sozinha, sem a presença dos pais da criança nem de qualquer membro da equipe médica — uma clara violação do protocolo padrão de transporte de recém-nascidos no hospital.
“Achei estranho, porque a gente que trabalha no hospital conhece qualquer tipo de material. Tudo o que sai ali tem que ter um registro, algum documento”, explicou. Ao se aproximar e questionar o que a técnica carregava nos braços, Késia chegou a perguntar se era um boneco. A resposta a deixou sem chão: era um bebê de verdade, com poucas horas de vida.
A abordagem e a reação da técnica
Mesmo sendo chamada mais de uma vez, a técnica de enfermagem, identificada como Eliane Borges Tavares Dias Vieira, de 44 anos, não parou imediatamente — percorrendo alguns metros pelo corredor antes de ser interceptada. Ao ser confrontada, sorriu e afirmou que tudo não passava de uma “brincadeira”, dizendo que a vigilante havia passado em um “teste”.
Késia não aceitou a justificativa. Ela conduziu Eliane de volta ao centro obstétrico, acionou a supervisão, a equipe de enfermagem e, diante da gravidade dos fatos, a Polícia Militar foi chamada para registrar o flagrante. “Aquela situação não pode acontecer nunca, jamais”, disse a vigilante.
A mãe da recém-nascida só soube do risco que a filha correu no momento de receber alta. Késia chegou a visitar a família depois do ocorrido.
Câmeras registraram toda a ação
As imagens das câmeras de segurança do hospital registraram Eliane circulando pelos corredores com a criança no colo, inclusive olhando para trás ao passar por outras pessoas. Em seguida, as gravações mostram Késia correndo em sua direção e contendo a técnica antes que ela se aproximasse da saída do hospital.
Um novo protocolo criado pela vigilante
A repercussão do caso entre os colegas foi positiva, e Késia transformou a experiência em aprendizado prático. Ela criou um protocolo próprio para o setor: fotografar as pulseiras de identificação da mãe e do recém-nascido na entrada, conferir se as numerações batem e só autorizar a saída após essa verificação. Tudo é registrado também no livro de controle da segurança.
Para o diretor operacional da Brasília Segurança, empresa responsável pela vigilância do hospital, o episódio reforça que o sucesso veio da combinação de treinamento rigoroso, sensibilidade profissional e tecnologia. A empresa gerencia quase 15 mil câmeras integradas a sistemas de monitoramento inteligente nas unidades da rede do Iges-DF e da Secretaria de Saúde do DF, com sensores que geram alertas automáticos para movimentações irregulares.
Késia resume a lição com uma frase direta: “O nosso trabalho é muito intenso. Se você fechar o olho por 30 segundos, muita coisa passa.”








