Julgamento da maior chacina do DF começa com cinco réus que podem pegar até 358 anos de prisão

abril 14, 2026

O Fórum de Planaltina recebeu, na manhã desta segunda-feira (13), o início do julgamento que pode escrever um dos capítulos mais sombrios da história judicial do Distrito Federal. Cinco homens acusados de exterminar dez integrantes de uma mesma família entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023 sentaram no banco dos réus do Tribunal do Júri — e, juntos, enfrentam penas que somam até 358 anos de prisão.

O caso ficou marcado na memória dos brasilienses como a maior chacina já registrada no DF, não apenas pelo número de vítimas, mas pela frieza e brutalidade com que os crimes foram planejados e executados. Entre os mortos, três crianças de seis e sete anos.

Quem são os réus

Os cinco acusados são Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva. Segundo a denúncia do MPDFT (Ministério Público do Distrito Federal), eles respondem por homicídio qualificado, latrocínio, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, associação criminosa qualificada, fraude processual e corrupção de menor, entre outros crimes.

A Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Planaltina arrolou 23 testemunhas para o processo. O julgamento deve se estender por vários dias, com oitiva de testemunhas, interrogatório dos réus e apresentação dos argumentos de acusação e defesa.

A motivação: uma chácara que nem pertencia à família

O ponto de partida de toda a tragédia foi um terreno de 5,2 hectares localizado no Itapoã, região do Paranoá, avaliado à época em cerca de R$ 2 milhões. A chácara Quilombo, como era conhecida, estava sob a posse de Marcos Antônio Lopes de Oliveira — mas, segundo as investigações, o imóvel era alvo de disputa judicial desde 2020, com os verdadeiros proprietários buscando a retomada da área.

O grupo teria planejado eliminar toda a família de Marcos para assumir o controle do terreno sem deixar herdeiros. A ironia macabra do caso: a propriedade nem pertencia legalmente a ele.

A cronologia das mortes

27 de dezembro de 2022 — O primeiro golpe

Gideon, Horácio e Carlomam, acompanhados de um adolescente, invadiram a residência de Marcos Antônio. Levaram cerca de R$ 49,5 mil em dinheiro e conduziram Marcos, a esposa Renata Juliene Belchior e a filha Gabriela Belchior de Oliveira para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina. Marcos foi morto logo após o rapto e enterrado no local. As duas mulheres foram mantidas vivas, coagidas a entregar senhas de celulares e contas bancárias.

Dias seguintes — A armadilha se expande

Com os aparelhos das vítimas em mãos, os criminosos se passaram pelos próprios sequestrados e atraíram outros familiares para emboscadas. Cláudia da Rocha Marques, ex-companheira de Marcos, e Ana Beatriz Marques de Oliveira, filha de ambos, foram enganadas e levadas ao mesmo cativeiro. Em seguida, Thiago Gabriel Belchior, filho de Marcos, também foi rendido pelo grupo.

12 de janeiro de 2023 — O estopim das investigações

Usando o celular de Thiago, o grupo atraiu sua esposa, a cabeleireira Elizamar da Silva, de 39 anos, junto com os três filhos do casal: os gêmeos Rafael e Rafaela, de seis anos, e Gabriel, de sete. Os quatro foram conduzidos a Cristalina (GO), onde foram estrangulados. Os corpos foram incinerados dentro do próprio carro de Elizamar, em uma rodovia estadual goiana. Foi o desaparecimento de Elizamar e das crianças que desencadeou as buscas policiais.

14 de janeiro de 2023 — Os últimos assassinatos

Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. De volta ao cativeiro, Gideon, Horácio e Carlomam executaram as vítimas restantes — Cláudia, Ana Beatriz e Thiago — e ocultaram os corpos em uma cisterna. O grupo ainda tentou destruir evidências para dificultar o trabalho da perícia.

As vítimas

As dez pessoas mortas na chacina eram:

Marcos Antônio Lopes de Oliveira; Renata Juliene Belchior (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira (filha de Marcos e Renata); Cláudia da Rocha Marques (ex-companheira de Marcos); Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia); Thiago Gabriel Belchior (filho de Marcos); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael da Silva, 6 anos (filho de Thiago e Elizamar); Rafaela da Silva, 6 anos (filha de Thiago e Elizamar); Gabriel da Silva, 7 anos (filho de Thiago e Elizamar).

“A lei não dá conta”

Do lado de fora do fórum, familiares das vítimas acompanharam o início do julgamento com emoção e revolta. O advogado que representa os parentes das vítimas declarou que o ordenamento jurídico brasileiro não oferece resposta proporcional à dimensão do crime, chegando a afirmar que os réus deveriam ser julgados em estados norte-americanos onde existe pena de morte.

Nelita Maria, mãe de Elizamar, falou sobre a dor que não passou com o tempo: segundo ela, apenas a fé a sustenta diante de uma perda de tamanho incompreensível.

O julgamento continua nos próximos dias.