Quem trabalha na rua em Brasília atravessa a semana mais dura do ano. O Distrito Federal acumula mais de 50 dias sem chuva desde 24 de junho e opera sob alerta laranja do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a segunda faixa mais grave da escala, com validade até as 18h deste sábado (15/8).
No dia 10 de agosto, a estação da Ponte Alta, no Gama, registrou 34,3°C e umidade relativa do ar de 13%, a marca mais seca e mais quente de 2026 até agora. O índice de 60% é a referência usada como limite de conforto para o corpo humano. Abaixo de 12%, a condição é classificada como estado de emergência.
Para ambulantes, agentes de limpeza, entregadores e trabalhadores de obra, não existe a opção de esperar passar. Vendedor ambulante, Roberto Correia, 46 anos, improvisa a proteção que o ponto de trabalho não oferece.
Neste período de seca, é muito quente. A gente não consegue ter tanta proteção aqui. Quando o sol aperta, eu busco abrigo dentro do meu carro ou sob uma lona.
Agente de limpeza, Juliana Victor, 35, aponta a diferença em relação aos anos anteriores: “Acho que este ano está até mais seco que o ano passado, sinto que dá mais dor”. A colega Iolanda Bezerra, 47, conta que a empresa fornece protetor solar e boné e reforça a orientação, mas que o desgaste aparece de todo jeito. “A gente sente muito, principalmente quando está varrendo”, diz.
O que a exposição contínua provoca no corpo
O efeito da combinação de calor e ar seco não se resume ao desconforto. Ele atinge pele, vias respiratórias e sistema circulatório, e o dano se acumula ao longo das temporadas de seca.
O dermatologista Eduardo Oliveira alerta para o que a rotina sob sol direto cobra a médio prazo. “Essa exposição contínua acelera o envelhecimento da pele, causa manchas e lesões”, afirma. A recomendação passa por protetor solar reaplicado ao longo do dia, roupas de manga comprida, chapéu de abas largas e óculos com proteção ultravioleta.
Pelo lado respiratório, a pneumologista Gilda Elizabeth orienta hidratação constante e restrição da exposição no intervalo mais crítico. “Quem trabalha sob calor intenso deve ingerir água de forma frequente”, diz. A janela entre 10h e 16h concentra a radiação mais forte e é a que exige mais cuidado.
Os sintomas que indicam necessidade de parar imediatamente são conhecidos e costumam ser ignorados no meio do expediente:
- dor de cabeça persistente e tontura;
- náusea, cãibra e fraqueza muscular;
- pele quente e seca, sem suor, sinal de que o corpo perdeu a capacidade de se resfriar;
- confusão mental ou fala arrastada, que caracterizam quadro grave e pedem socorro pelo 192;
- sangramento nasal, ligado ao ressecamento das mucosas.
Como reduzir o risco sem parar de trabalhar
As medidas que dependem do próprio trabalhador ou de acerto simples com o empregador são de baixo custo e efeito imediato:
- antecipar a jornada, com entrada às 6h e saída às 14h, para tirar o corpo do pico de radiação;
- ampliar as pausas em local sombreado, mesmo que curtas, a cada hora de exposição;
- manter garrafa de água ao alcance e beber antes de sentir sede, porque a sede já é sinal de desidratação;
- lavar o nariz com soro fisiológico ao fim do turno, para recompor a mucosa ressecada;
- evitar atividade física intensa entre 12h e 18h, inclusive fora do trabalho.
Parte dessas medidas não depende só de boa vontade do trabalhador. A Norma Regulamentadora 21, que trata de trabalhos a céu aberto, obriga o empregador a garantir proteção contra insolação, calor excessivo e umidade, além de abrigo capaz de proteger o trabalhador durante as pausas. A norma também exige água potável disponível no local. O descumprimento pode ser levado à fiscalização do trabalho ou ao sindicato da categoria.
O quadro atual tem explicação meteorológica. O meteorologista Leydson Dantas atribui a sequência de dias secos a um bloqueio atmosférico: uma área de alta pressão instalada sobre o Centro-Oeste impede o avanço de frentes frias e mantém o céu limpo, o que amplia a radiação durante o dia e favorece a queda da umidade à tarde.
A Defesa Civil do DF mantém a orientação de aumentar a ingestão de líquidos, umidificar ambientes fechados com bacias de água ou toalhas molhadas e evitar queimadas, que agravam a qualidade do ar em período de estiagem. O alerta laranja do Inmet para baixa umidade no DF segue vigente e é atualizado diariamente pelo instituto.








