Ex-médico acusado de matar mãe a fogo vai a júri popular em Águas Claras no dia 19 de março

março 11, 2026
Ex-médico acusado de matar mãe a fogo vai a júri popular em Águas Claras no dia 19 de março

Ex-médico acusado de atear fogo na própria mãe vai a júri popular em Águas Claras no dia 19 de março

Lauro Estevão Vaz é réu por feminicídio qualificado e fraude processual; motivação seria financeira

O ex-médico Lauro Estevão Vaz, acusado de provocar a morte da mãe ao incendiar o apartamento onde ela vivia, será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri de Águas Claras no próximo dia 19 de março, uma quinta-feira, a partir das 9h. Ele está preso desde junho de 2024.

A vítima, Zely Alves Curvo, de 94 anos, morreu em decorrência de um incêndio registrado em 31 de maio de 2024 no imóvel onde residia com o filho, em Águas Claras, no Distrito Federal. Segundo a denúncia do Ministério Público do DF (MPDFT), o crime teria sido motivado por interesses financeiros do acusado. Lauro responde pelos crimes de feminicídio qualificado — com as agravantes de motivo torpe, emprego de fogo e uso de recurso que impediu qualquer chance de defesa por parte da vítima — e fraude processual.

Disputa pela curatela teria motivado o crime

De acordo com o MPDFT, o acusado não teria se conformado com a perda da curatela da mãe, que lhe foi retirada após episódios anteriores de conflito envolvendo a idosa. Com isso, o controle sobre os rendimentos de Zely passou para as mãos de outro familiar, o que, na tese da acusação, gerou insatisfação e dificuldades financeiras para Lauro. Testemunhas relataram à Polícia Civil do DF (PCDF) que o réu reclamava abertamente da perda do acesso ao dinheiro da mãe e que chegou a tentar reverter a decisão na Justiça.

Perícia descartou acidente e confirmou ação humana

Um laudo pericial realizado no apartamento apontou que as chamas tiveram origem na maca onde Zely estava deitada. A análise técnica afastou hipóteses de acidente elétrico ou fenômeno natural, concluindo que o fogo foi provocado intencionalmente. A investigação da 21ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul) identificou que Lauro foi a última pessoa a sair do imóvel antes do início do incêndio.

Acusado voltou ao apartamento três vezes após o crime para alterar vestígios

Além do crime principal, o ex-médico também é acusado de fraude processual. Segundo as apurações, ele retornou ao apartamento ao menos três vezes após a morte da mãe, mesmo com a área sinalizada para preservação da cena do crime. Na primeira vez, ainda no dia do incêndio, teria retirado diversos objetos do local. Nos dias 1º, 2 e 3 de junho, voltou novamente ao imóvel por períodos prolongados. A perícia constatou movimentação de objetos em diferentes cômodos antes da conclusão dos exames, o que, para a acusação, teve o objetivo de prejudicar a análise forense e induzir a erro as investigações.

Histórico de abandono, isolamento e violência contra a idosa

O caso tem um histórico que antecede o incêndio. Em maio de 2023, Zely havia sido internada no Hospital Militar da Área de Brasília (HMab) após um acidente vascular cerebral (AVC). Ao receber alta, ficou à espera por semanas porque Lauro se recusava a buscá-la. Em uma das visitas ao hospital, ele se exaltou diante da equipe e a polícia precisou ser acionada. Parentes da vítima descreviam o réu ao MPDFT como uma pessoa agressiva, que gerava conflitos constantes com vizinhos e familiares. Relatos também apontam que, ao levar a mãe para morar com ele em Águas Claras no fim de 2021, Lauro teria isolado a idosa da família, trocando o número do celular dela e desativando o telefone fixo. Testemunhas ainda informaram que ele a deixava sozinha por longos períodos, não custeava cuidadores e utilizava os recursos financeiros de Zely para gastos pessoais.

CRM cassou registro de Lauro por abuso sexual contra pacientes

Antes do crime, Lauro já acumulava um histórico criminal. O ex-médico ginecologista foi condenado em primeira e segunda instâncias por abuso sexual contra duas pacientes durante consultas no Centro de Saúde nº 1, em São Sebastião (DF), entre 2009 e 2010. Uma das vítimas tinha apenas 17 anos e estava grávida à época. Em consequência, o Conselho Regional de Medicina do DF (CRM-DF) cassou seu registro profissional. Caso seja condenado pelo Tribunal do Júri, Lauro pode enfrentar pena de 12 a 30 anos de prisão.

Como funciona o Tribunal do Júri no Brasil

O Tribunal do Júri é uma garantia constitucional prevista no artigo 5º da Constituição Federal. Nos crimes dolosos contra a vida — como homicídio, feminicídio e infanticídio — a decisão final cabe a sete jurados leigos, escolhidos entre cidadãos comuns.

O processo começa com a pronúncia do réu pelo juiz togado, que avalia se há provas suficientes para levá-lo a julgamento. No plenário, promotor e advogado de defesa apresentam seus argumentos. Os jurados votam em sigilo e a decisão é tomada por maioria simples (4 a 3).

Caso condenado, o réu pode recorrer. Se absolvido, o Ministério Público também pode recorrer em casos de decisão manifestamente contrária às provas. No DF, os julgamentos do Tribunal do Júri são realizados no TJDFT, com sessões abertas ao público salvo quando há sigilo de Justiça decretado.

O papel do MPDFT nos crimes julgados pelo júri

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) é o responsável por oferecer a denúncia, reunir as provas e sustentar a acusação no plenário do júri. A instituição mantém uma promotoria especializada em crimes contra a vida, que acompanha todos os inquéritos de homicídio, feminicídio e lesão corporal grave no DF.