A Argentina registrou em maio um superávit comercial recorde de US$ 3,504 bilhões, o maior da série histórica, puxado por exportações de US$ 9,537 bilhões, alta de 34,4% sobre o mesmo mês de 2025, segundo o instituto de estatísticas do país, o Indec. O resultado é a face mais visível do ajuste do presidente Javier Milei, mas convive com um dado incômodo: a atividade econômica caiu 1,5% em abril na comparação com março.
O contraste resume o momento argentino. As contas externas e fiscais melhoram em velocidade acelerada, enquanto indústria, comércio e consumo das famílias seguem sem reagir. Para o Brasil, maior parceiro do país no Mercosul, os dois movimentos importam ao mesmo tempo.
Exportações puxam o resultado
O salto exportador de maio veio espalhado por todos os grandes grupos de produtos, com destaque para energia. As importações andaram na direção contrária e recuaram 7%, para US$ 6,033 bilhões, reflexo do consumo interno fraco.
- Superávit de maio: US$ 3,504 bilhões, crescimento de 477% sobre maio de 2025;
- Exportações: US$ 9,537 bilhões, recorde para o mês;
- Acumulado de janeiro a maio: US$ 11,783 bilhões, acima do saldo de todo o ano de 2025, que fechou em US$ 11,32 bilhões;
- Caixa do governo: superávit fiscal primário de 1,924 trilhão de pesos em maio, cerca de US$ 1,34 bilhão.
“Todas as principais categorias de exportação registraram crescimento em comparação com maio do ano passado, com aumentos de 167,1% em combustíveis e energia, 22,5% em produtos primários, 20,5% em produtos agrícolas manufaturados e 20,1% em produtos industriais manufaturados”, comemorou o ministro da Economia, Luis Caputo.
Atividade interna perde fôlego
O Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE) de abril, divulgado pelo Indec, mostrou queda de 1,5% frente a março na medição dessazonalizada, depois de um salto de 3,5% no mês anterior. Na comparação com abril de 2025, ainda houve alta de 1,6%, e o acumulado do ano ficou em 0,3%.
O detalhe setorial explica a economia de duas velocidades: mineração cresceu 17,1% e o agro avançou 10,9% em um ano, enquanto a indústria de transformação caiu 2,9%, com suspensões e fechamento de plantas no setor automotivo, e o comércio recuou 3,2%, pressionado pela perda de poder de compra das famílias.
O que muda para o Brasil
A Argentina é o principal destino dos manufaturados brasileiros dentro do Mercosul, de veículos a máquinas e alimentos processados. Consumo fraco e importações em queda do lado de lá significam menos encomendas para a indústria brasileira, mesmo com as contas argentinas mais organizadas.
Já a estabilização do peso e o superávit recorde reduzem o risco de solavancos cambiais na fronteira, o que afeta desde o comércio bilateral até o turismo de brasileiros em Buenos Aires e Bariloche. O câmbio segue sendo a variável a observar: entenda como acompanhar o dólar e o que influencia a cotação.
O governo argentino aposta que abril tenha sido o último dado mensal negativo da atividade e que o ciclo de crescimento, já o mais longo em quase 15 anos pelo componente de tendência do EMAE, volte a aparecer nos números do segundo semestre. Até lá, o país segue exportando como nunca e consumindo como poucas vezes.
Perguntas frequentes
Por que o superávit é recorde se a economia caiu?
A balança comercial mede o comércio externo, não a atividade. As exportações de energia, mineração e agro dispararam enquanto as importações caíram 7% com o consumo interno fraco, o que infla o saldo.
O que o resultado argentino muda para o Brasil?
A Argentina é o principal parceiro do Brasil no Mercosul. Consumo e importações em queda reduzem as encomendas de manufaturados brasileiros, mas a estabilidade cambial favorece o comércio bilateral e o turismo.








