Em Brasília, artesãos indígenas veem obras como ação de resistência

abril 8, 2026

Com as mãos cobertas de tinta preta de jenipapo e uma fina tala de madeira servindo de pincel, Nhak Krere Xikrin, de 26 anos, recebe visitantes no Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília e apresenta mais de 200 desenhos possíveis para cobrir rostos, braços e pernas. A jovem, originária da Aldeia ô-ôdja, no sudeste do Pará, aprendeu a técnica com a mãe e a avó — e garante que vai repassar o conhecimento às filhas.

O ATL, maior mobilização indígena do país, reúne nesta edição mais de 6 mil pessoas das cinco regiões do Brasil, principalmente para pressionar por demarcação de terras e outras políticas públicas. Mas entre os pavilhões e as marchas, corredores inteiros abrigam expressões artísticas de comunidades de todo o país — e para quem produz, essas obras têm um peso muito além da estética.

Arte como sustento e resistência

Da Aldeia Afukuri, no município de Querência (MT), região do Alto Xingu, um grupo de artesãos Kuikuro apresenta peças e já combina com os clientes como manter contato pelas redes sociais após o evento. Para Geraldo Kuikuro, liderança de 40 anos, o artesanato se tornou uma fonte de renda indispensável para a aldeia com 88 famílias — especialmente num momento em que a produção agrícola enfrenta pressão crescente de fazendeiros que avançam sobre o entorno do território.

O impacto das mudanças climáticas também é sentido de perto. Geraldo conta que o ciclo das chuvas se deslocou, comprometendo o plantio da mandioca, que antes era iniciado em agosto e agora só acontece em outubro.

“Conto a história do meu povo”

Ontxa Mehinako, de 35 anos, da Aldeia Utawana, começou a esculpir madeira aos 18 anos e vive numa comunidade onde a maioria das pessoas se identifica como artista. Em suas peças, estão os animais que habitam as redondezas: tamanduá, onça, capivara, quati, anta, arara. Para ele, esculpir é preservar — e a arte é o meio pelo qual a história do seu povo chega a outras partes do Brasil.

Próximo a ele, Mazinho Naruvôtu, de 54 anos, do Território Indígena do Pequizal do Naruvôtu, orgulha-se de apresentar obras em madeira sucupira — incluindo gaviões, o animal que ele considera um cacique da natureza. Cada peça passa por meses de trabalho: talha, lixamento e pintura, do início ao fim. Algumas chegam a custar mais de R$ 3 mil.

Arte como aliança

Jaqueline Kalapalo, de 26 anos, da Aldeia Kalapalo no Alto Xingu (MT), vende brincos e colares de caramujo que representam, segundo ela, o ciclo contínuo da vida. Ao lado, Raira Kamayurá, de 22 anos, comercializa braceletes e pulseiras coloridas e vê alegria genuína quando não indígenas escolhem usar as peças. Para ela, cada pessoa que veste uma peça do seu povo demonstra solidariedade a uma luta mais ampla.

Raira lamenta que garimpeiros ainda operem próximos à sua aldeia em Mato Grosso, poluindo os rios e dificultando a vida da comunidade — que só pode ser acessada de barco ou avião. Para chegar a Brasília, os representantes Kamayurá precisaram percorrer quase uma hora de embarcação antes de alcançar uma estrada. A distância física não apaga, porém, a clareza do recado que trouxeram na bagagem: a arte indígena é, antes de tudo, um ato de resistência.