Professor Condenado por Feminicídio Dá Aulas em Escola Pública do DF e Causa Temor Entre Colegas

março 10, 2026

Docente que matou ex-namorada em 2010 foi contratado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal como substituto temporário; professoras relatam medo e insegurança no ambiente escolar


Uma professora do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 03 da Cidade Estrutural, no Distrito Federal, denunciou o clima de insegurança instaurado na unidade após a chegada de um colega de trabalho condenado por feminicídio. O docente Igor Azevedo Bomfim, de 46 anos, foi contratado pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) como professor substituto temporário no início de 2026 — e passou a ministrar aulas na escola sem que a gestão da instituição ou os demais funcionários tivessem sido previamente informados sobre seu histórico criminal.

A profissional, que solicitou o anonimato por temer represálias, afirmou à imprensa que conviver diariamente com o colega tem gerado angústia, tensão e dificuldade de comunicação no ambiente de trabalho. Segundo ela, o sentimento é compartilhado por diversas professoras da instituição. “Somos muitas mulheres. Somente no período da tarde, são 12 professoras”, destacou.

A docente relatou ainda que a presença do professor a afeta diretamente nas interações cotidianas: passa o dia em estado de tensão e trava ao precisar se comunicar com ele. A situação, segundo ela, compromete o bem-estar do corpo docente e levanta dúvidas sobre a segurança de toda a comunidade escolar — incluindo estudantes, pais e responsáveis.


Chegada Silenciosa: Nenhum Aviso da Secretaria de Educação

De acordo com a professora, a situação só veio à tona porque uma colega reconheceu Igor Azevedo. A partir desse momento, a informação se espalhou entre os funcionários da escola. A Secretaria de Educação não teria comunicado previamente à direção ou à equipe pedagógica sobre o histórico do profissional admitido.

A docente critica a ausência de critérios mais rigorosos no processo seletivo da SEEDF. Na sua avaliação, a falta de triagem adequada coloca em risco não apenas os servidores, mas também crianças e adolescentes que frequentam a unidade escolar diariamente.


Semana de Combate à Violência Contra a Mulher Gera Novo Dilema

O episódio ganha contornos ainda mais delicados diante de uma programação já prevista para o CEF 03 ainda em março: a Semana Escolar de Combate ao Machismo e à Violência Contra a Mulher. A professora expressou preocupação sobre como Igor reagirá ao evento, considerando que o tema é diretamente relacionado ao crime que ele cometeu.

A docente questiona como será possível realizar o evento com credibilidade e segurança, diante da presença de um professor que confessou o assassinato de sua ex-companheira. Ela teme que o colega, ao perceber que todos conhecem seu passado, possa ter uma reação imprevisível durante as atividades.


O Crime: Feminicídio em 2010 na Bahia

Em 2 de novembro de 2010, Igor Azevedo Bomfim invadiu a residência de Mayara de Souza Lisboa, sua então ex-namorada, no município de Santa Rita de Cássia (BA), e efetuou disparos de arma de fogo contra ela. A jovem morreu no local.

Após o crime, Igor permaneceu foragido por 12 dias antes de se apresentar espontaneamente à polícia, quando confessou o assassinato. Na ocasião, alegou ter agido em “defesa da honra” — argumento que contraria os princípios constitucionais e os direitos fundamentais das mulheres.

Em 2013, foi absolvido pelo Tribunal do Júri, mas a decisão foi posteriormente anulada. Em 2019, foi condenado a 10 anos, 10 meses e 18 dias de reclusão. O réu recorreu da sentença e permaneceu em liberdade até novembro de 2024, quando o caso transitou em julgado e ele foi preso no Distrito Federal. Poucos dias depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou o trânsito em julgado, e Igor foi solto. O processo segue sem novas atualizações relevantes.


O Que Diz a Secretaria de Educação do DF

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal informou, por meio de nota oficial, que o caso está sendo tratado com discrição pela Corregedoria da pasta, por meio de processo sigiloso. A SEEDF não esclareceu se tinha conhecimento do processo judicial em andamento no momento em que Igor Azevedo foi convocado para o cargo de professor substituto temporário.


O Que Diz a Defesa do Acusado

A defesa de Igor Azevedo Bomfim informou, em nota, que aguarda decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o caso. A assessoria jurídica reiterou que, nos termos da Constituição Federal, qualquer pessoa é presumidamente inocente até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.


Contexto: Feminicídio e Segurança nas Escolas Públicas do DF

O caso reacende o debate sobre a necessidade de processos seletivos mais criteriosos para a contratação de servidores temporários na rede pública de ensino do Distrito Federal. A situação também levanta questões sobre os mecanismos de transparência e comunicação interna adotados pela SEEDF, especialmente em casos que envolvam antecedentes criminais de candidatos aprovados em processos seletivos.

Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Distrito Federal registra altos índices de violência doméstica e feminicídio, tornando ainda mais sensível a presença de um profissional com esse histórico em uma instituição de ensino voltada para crianças e adolescentes.