O Brasil enfrenta uma crise silenciosa que compromete diretamente a segurança pública: a redução drástica do efetivo das Polícias Militares. Nos últimos dez anos, as corporações estaduais perderam aproximadamente 30 mil agentes, um número alarmante que equivale ao contingente completo de alguns estados menores.
Essa diminuição não resulta de uma política deliberada de redução de quadros, mas sim de uma combinação de fatores que vão desde aposentadorias em massa até a dificuldade de renovação dos efetivos através de concursos públicos. O resultado é uma polícia cada vez mais sobrecarregada, tentando proteger uma população que só cresce.
As raízes do problema
O déficit policial brasileiro tem causas multifatoriais. A primeira e mais evidente é demográfica: uma onda de aposentadorias atingiu as corporações nos últimos anos. Policiais que ingressaram nas décadas de 1980 e 1990 atingiram o tempo mínimo para se aposentar, e muitos optaram por deixar a ativa diante das condições cada vez mais adversas da profissão.
Paralelamente, a realização de concursos públicos não acompanhou o ritmo das saídas. Crises fiscais estaduais, especialmente após 2014, congelaram contratações. Estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul enfrentaram dificuldades orçamentárias que impediram a reposição adequada dos quadros.
Outro fator crítico é a evasão. Mesmo quando há concursos, muitos aprovados desistem ainda durante o curso de formação ou nos primeiros anos de carreira. As razões são conhecidas: salários defasados, jornadas extenuantes, falta de equipamentos adequados e, sobretudo, o risco inerente à profissão sem a devida valorização.
Números que preocupam
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil tinha cerca de 426 mil policiais militares em 2013. Uma década depois, esse número caiu para aproximadamente 396 mil, representando uma redução de 7% no efetivo nacional. Em alguns estados, a queda foi ainda mais acentuada, ultrapassando 15%.
Para contextualizar a gravidade, o índice da Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda pelo menos 300 policiais para cada 100 mil habitantes. O Brasil, com seus números atuais, mal consegue atingir a marca de 200 policiais por 100 mil habitantes em várias regiões, ficando muito abaixo do ideal.
Essa defasagem é ainda mais crítica em áreas periféricas e no interior dos estados, onde a presença policial já era historicamente reduzida. Municípios inteiros ficam à mercê de destacamentos com meia dúzia de policiais para atender milhares de habitantes.
Impactos na segurança pública
A consequência mais imediata da redução do efetivo é o aumento da carga de trabalho dos policiais que permanecem na ativa. Turnos que deveriam ser de 12 horas muitas vezes se estendem por 16 ou até 24 horas. O cansaço físico e mental compromete a qualidade do atendimento e aumenta o risco de erros em situações críticas.
O policiamento ostensivo, essencial para a prevenção de crimes, fica comprometido. Com menos efetivo nas ruas, a sensação de impunidade cresce entre criminosos. Áreas que antes contavam com rondas regulares ficam descobertas, tornando-se alvos fáceis para ações ilícitas.
A capacidade de resposta a emergências também é afetada. Viaturas que deveriam atuar com dois ou três policiais operam com apenas um. O tempo de resposta aumenta, e situações que exigiriam mais agentes acabam sendo atendidas de forma precária.
Além dos números: o fator humano
Por trás das estatísticas, há uma realidade humana preocupante. Policiais militares lidam diariamente com situações de alto estresse, violência e trauma. A falta de efetivo não apenas sobrecarrega fisicamente, mas também cobra seu preço emocional.
Estudos apontam altos índices de problemas psicológicos entre policiais, incluindo depressão, ansiedade e síndrome de burnout. A falta de apoio psicológico adequado agrava o quadro. Não raro, policiais desenvolvem transtornos que os afastam do trabalho, criando um ciclo vicioso que reduz ainda mais o efetivo disponível.
A desmotivação também é um problema real. Ver colegas partindo para outras carreiras ou aposentadorias precoces, enquanto as condições de trabalho continuam deterioradas, mina o moral das corporações. O sentimento de desvalorização se reflete no desempenho e na relação com a população.
Tentativas de solução
Diante do cenário crítico, alguns estados tentam reverter a situação. Concursos começam a ser realizados novamente, ainda que timidamente. Rio de Janeiro, por exemplo, anunciou a convocação de milhares de novos PMs nos últimos dois anos, buscando repor parte das perdas.
Iniciativas de valorização profissional também surgem, incluindo reajustes salariais (embora insuficientes), melhorias em equipamentos e investimentos em infraestrutura. Alguns estados implementaram programas de apoio psicológico e acompanhamento de saúde mental para os agentes.
A tecnologia também é apontada como aliada. Sistemas de videomonitoramento, centrais integradas de operação e uso de inteligência artificial para prever crimes tentam compensar a falta de efetivo humano. Contudo, especialistas alertam que tecnologia não substitui a presença do policial nas ruas.
O caminho à frente
A recuperação do efetivo policial não será rápida nem fácil. Requer investimento sustentado, planejamento de longo prazo e, principalmente, vontade política. Estados precisam enxergar a segurança pública não como gasto, mas como investimento essencial para o desenvolvimento social e econômico.
Além de repor os números, é fundamental melhorar as condições de trabalho para reter talentos. Salários compatíveis com o risco da profissão, infraestrutura adequada, equipamentos modernos e suporte psicológico são investimentos que trazem retorno em forma de policiamento mais eficiente e humanizado.
A sociedade também tem papel crucial. Valorizar o trabalho policial, cobrar melhorias através de participação democrática e compreender que segurança pública de qualidade tem custo são atitudes necessárias para mudanças efetivas.
Enquanto o déficit de 30 mil policiais não for revertido, o Brasil continuará pagando um preço alto em vidas perdidas, criminalidade elevada e sensação de insegurança que corrói o tecido social. A questão não é mais se devemos agir, mas quando começaremos a tratar a segurança pública com a seriedade que ela merece.





