Compras incluem mísseis Javelin americanos e armamento fabricado no Brasil
Em 2025, o Exército adquiriu 220 mísseis anticarros divididos em dois lotes, com custo total de R$ 153,8 milhões. O primeiro lote, de 100 unidades do modelo Javelin FGM-148F, foi negociado diretamente com o governo dos Estados Unidos por meio da Comissão do Exército em Washington. O segundo lote, de 120 mísseis do modelo 1.2 AC Max, resultou de contrato com a empresa SIATT Engenharia, sediada em São José dos Campos (SP).
A Força justificou as aquisições como necessárias para “aprimorar a capacidade de dissuasão” e fortalecer a linha de defesa em combates terrestres. O Exército citou explicitamente as lições da guerra entre Rússia e Ucrânia, destacando que as forças ucranianas conseguiram deter colunas blindadas com o uso de mísseis anticarro portáteis — causando perdas significativas ao lado russo. Também foram mencionados os conflitos na Palestina, onde esse tipo de armamento se mostrou eficaz em ambientes urbanos contra forças mecanizadas superiores.
O míssil 1.2 AC Max, produzido no Brasil, é de médio alcance e opera por meio de um laser invisível codificado, que guia o projétil do lançamento até o alvo com precisão.
Crise de Essequibo foi o principal gatilho para o rearmamento
Militares envolvidos no processo de tomada de decisão dentro do programa Forças Blindadas apontam a crise de Essequibo como o evento que acelerou a modernização do arsenal. No fim de 2023, o ditador venezuelano Nicolás Maduro intensificou as movimentações para anexar a região disputada com a Guiana — o que, na prática, colocaria tropas venezuelanas na fronteira com o Brasil.
Setores de inteligência chegaram a identificar a possibilidade real de uma invasão terrestre à Guiana. Em resposta, as Forças Armadas brasileiras deslocaram aeronaves, tropas, carros blindados e mísseis para Roraima. A conclusão dos militares foi clara: o Brasil precisava de equipamento mais potente, especialmente diante da frota de blindados russos operada pelos venezuelanos.
O cenário mudou radicalmente nos primeiros meses de 2026, quando o presidente americano Donald Trump ordenou uma intervenção militar em Caracas, resultando na captura de Maduro e em seu translado para Nova York para responder por acusações de tráfico de drogas.
Blindados Guarani: anfíbio, 18 toneladas e 110 km/h
Na frente dos veículos blindados, o Exército adquiriu 163 unidades entre 2023 e 2026, com gastos de R$ 1,12 bilhão. A maioria é do modelo VBTP MSR 6×6 Guarani, fabricado pela IDV Brasil, em Sete Lagoas (MG). O contrato global com a empresa prevê a entrega de centenas de veículos até 2040, em um acordo que totaliza R$ 7,5 bilhões.
O Guarani é um blindado versátil: opera em diferentes tipos de terreno e também na água, pesa 18 toneladas, alcança 110 km/h e tem autonomia de 600 km — características que o tornam adequado para a vasta e diversa geografia brasileira.
Lula pede avaliação de vulnerabilidades após intervenção dos EUA na Venezuela
A intervenção americana em Caracas gerou desconforto no Palácio do Planalto. O presidente Lula solicitou às Forças Armadas uma análise sobre as vulnerabilidades estratégicas do Brasil diante de uma ação militar do tipo. Durante encontro com o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, em Brasília, Lula foi direto: “Se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente.”
A tensão com o governo americano escalou ainda mais quando o governo brasileiro revogou o visto de Darren Beattie, assessor de Trump, após ele visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão. O Itamaraty classificou a visita como interferência nos assuntos internos do Brasil.
Distribuição geográfica dos armamentos foi negada pelo Exército
Ao solicitar a distribuição dos equipamentos por batalhão e estado, a reportagem teve o pedido negado pelo Exército, mesmo após recurso. A Força alegou que a informação poderia comprometer a segurança nacional e operações estratégicas.
Ainda assim, dados já divulgados publicamente pela própria instituição indicam que parte dos equipamentos foi destinada a unidades em Roraima e à 1ª Companhia Anticarro Mecanizada, em Osasco (SP). Testes com mísseis foram realizados no Rio de Janeiro, e brigadas no Paraná já receberam os novos blindados.








