O Brasil nunca esteve tão perto de conquistar sua primeira medalha olímpica de inverno. E essa esperança tem nome, sobrenome e sotaque que mistura Oslo com São Paulo: Lucas Pinheiro Braathen, o esquiador que carrega nas costas — e no coração — o sonho de colocar o país tropical no pódio das neves.
Neste sábado, Braathen entra nas pistas de Cortina d’Ampezzo, na Itália, para disputar uma das provas mais aguardadas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026. Como porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura ao lado da atleta de skeleton Nicole Silveira, o esquiador de 25 anos já fez história. Agora, busca transformar protagonismo em metal precioso.
Do gelo norueguês ao calor brasileiro
A trajetória de Lucas Braathen parece roteiro de filme. Nascido em Oslo em abril de 2000, ele é filho do norueguês Bjørn Braathen e da paulista Alessandra Pinheiro de Castro, que se conheceram em um voo para Miami. Cresceu entre dois mundos: o rigoroso inverno escandinavo e as visitas ao Brasil, onde cultivou paixão por Ronaldinho Gaúcho e chegou a treinar futebol na infância.
O esqui não foi amor à primeira vista. Pelo contrário. “Eu não queria esquiar! Meu pai me levava, mas não gostava, era muito frio. Eu chegava a falar que estava doente para não ir”, confessou em entrevista. Aos nove anos, porém, algo mudou. Na primeira descida, percebeu que era muito ruim comparado às outras crianças. Mas nas tentativas seguintes, viu progresso. E decidiu continuar.
Foi a melhor decisão de sua vida.
Ascensão meteórica no circuito mundial
Lucas Braathen não demorou a provar que tinha talento nato para o esqui alpino. Aos 20 anos, em 2020, conquistou sua primeira vitória na Copa do Mundo ao vencer o slalom gigante em Sölden, na Áustria. Era também seu primeiro pódio — direto para o topo.
Em 2022, entrou para a história do esporte ao vencer o tradicional slalom de Wengen, na Suíça, com a maior recuperação já registrada em uma prova: saltou da 29ª posição após a primeira descida para o primeiro lugar na segunda. O feito impressionante consolidou seu nome entre os grandes do esqui mundial.
Competindo pela Noruega, acumulou seis vitórias na Copa do Mundo (quatro em slalom e duas em slalom gigante) e 22 pódios. Na temporada 2023, chegou à quarta posição no ranking geral e se tornou o número 1 do mundo em slalom. Parecia que nada poderia deter sua carreira.
A aposentadoria precoce e a virada brasileira
Em outubro de 2023, porém, uma notícia chocou o mundo do esqui: aos 23 anos, Lucas Braathen anunciou aposentadoria. O motivo foi uma disputa com a Associação Norueguesa de Esqui sobre direitos de comercialização de imagem. O atleta denunciou ter sido exposto a uma campanha midiática negativa que o retratava como egoísta e ganancioso.
A pausa durou cinco meses. Em março de 2024, Braathen revelou ao Globo Esporte seu desejo de retornar ao esporte — mas dessa vez representando o Brasil, terra de sua mãe. “Estou apaixonado”, declarou na ocasião, referindo-se ao país e ao projeto de vestir verde e amarelo.
O retorno oficial aconteceu em outubro de 2024, em sua primeira corrida pela seleção brasileira. E foi triunfal: terminou em quarto lugar, conquistando os primeiros pontos da história do Brasil na Copa do Mundo de esqui alpino. Foi o início de uma nova era.
Rumo ao pódio olímpico
Na temporada 2025-2026, Lucas Braathen mostrou que a mudança de nacionalidade não diminuiu seu brilho. Pelo contrário. Voltou a vencer na Copa do Mundo (Levi, Finlândia) e colecionou pódios em algumas das provas mais prestigiadas do circuito, como Adelboden, Wengen e Kitzbühel.
Ao chegar para os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, ostenta a impressionante segunda posição no ranking mundial, tanto no geral quanto nas especialidades slalom e slalom gigante. Os números não mentem: ele é, de fato, candidato real a medalha.
A expectativa no Brasil é enorme. Nunca o país teve um atleta de inverno com credenciais tão sólidas para brigar por pódio olímpico. As participações brasileiras em Jogos de Inverno sempre foram marcadas mais pela representatividade e superação do que por resultados expressivos — até agora.
O que esperar da prova de sábado
O slalom e o slalom gigante são as especialidades de Braathen. Ambas as provas exigem técnica refinada, reflexos rápidos e coragem para traçar curvas apertadas em alta velocidade entre os portões marcados na neve. São modalidades em que milésimos de segundo fazem a diferença entre o ouro e o quarto lugar.
A competição acontece em Cortina d’Ampezzo, resort italiano com tradição no esqui alpino e que já sediou Jogos Olímpicos de Inverno em 1956. As pistas italianas são conhecidas pela exigência técnica, terreno onde Lucas costuma brilhar.
Os principais adversários são europeus que dominam o circuito mundial: suíços, austríacos, noruegueses e franceses compõem a elite do esqui alpino masculino. Mas Braathen já provou que pode vencê-los — fez isso repetidas vezes na Copa do Mundo.
Mais que um atleta: um símbolo
Para além dos resultados esportivos, Lucas Braathen representa algo maior. Ele é a ponte entre dois mundos, a prova de que fronteiras geográficas não limitam identidades. Sua escolha por representar o Brasil, país onde nunca residiu mas que carrega no sobrenome e nas raízes maternas, é gesto de afeto e pertencimento que transcende estratégias esportivas.
O esquiador é ativo nas redes sociais, onde compartilha não apenas treinos e competições, mas também aspectos de sua vida pessoal. Em junho de 2025, assumiu publicamente relacionamento com a atriz brasileira Isadora Cruz, consolidando ainda mais seus laços com o país.
Seu estilo descolado, as unhas pintadas e a personalidade autêntica o tornaram figura querida não só no Brasil, mas em todo o circuito mundial. Braathen não é apenas um atleta de elite — é influenciador, ativista da individualidade e símbolo de uma geração que não aceita caixinhas.
O peso da expectativa e a leveza da paixão
Carregar a esperança de um país inteiro sobre os ombros poderia ser fardo pesado. Mas Lucas Braathen parece leve. Em entrevistas, demonstra maturidade ao lidar com a pressão e clareza sobre seus objetivos. Sabe que medalha seria histórica, mas também entende que o caminho já é vitória.
“Estou aqui porque amo o que faço e porque quero representar o Brasil da melhor forma possível”, declarou em recente entrevista. A frase resume sua jornada: paixão genuína pelo esporte e pelo país que escolheu defender.
Neste sábado, quando Lucas Braathen se posicionar no portão de largada em Cortina d’Ampezzo, não estará sozinho. Levará consigo milhões de brasileiros que, pela primeira vez, acompanharão uma disputa por medalha olímpica de inverno com real possibilidade de pódio.
Seja qual for o resultado, a história já está escrita: Lucas Pinheiro Braathen é o maior nome do Brasil nos esportes de inverno e o responsável por despertar interesse inédito por modalidades que, até então, pareciam distantes demais da realidade tropical brasileira.
Que venha o sábado. Que venha a disputa. E que venha, quem sabe, a primeira medalha olímpica de inverno do Brasil.





